Questão FC655245
Verificava o seu pequeno coche de alpiste, renovava-lhe a água fresca, telefonava da rua quando chovia, meio encabulado perante mim mesmo com essa minha sentimentalidade tardia, ma
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
O canarinho
Atacado de senso de responsabilidade, num momento de descrença de si mesmo, Rubem Braga liquidou entre os amigos a sua passarinhada. Às crianças aqui de casa tocaram um bicudo e um canário. O primeiro não aguentou a crise da puberdade, morrendo uns dias depois. O menino se consolou, forjando a teoria da imortalidade dos passarinhos: não morrera, afirmou-nos, com um fanatismo que impunha respeito ou piedade, apenas a sua alma voara para Pirapora, de onde viera. O garoto ficou firme com a sua fé. A menina manteve a possessão do canário, desses comuns, que mais cantam por boa vontade que por vocação. Não importa, conseguiu depressa um lugar em nossa afeição.
Era um canário ordinário, nunca lera Bilac, e parecia feliz em sua gaiola. Nós o amávamos desse amor vagaroso e distraído com que enquadramos um bichinho em nossa órbita afetiva. Creio mesmo que se ama com mais força um animal sem raça, um pássaro comum, um cachorro vira-lata, o gato popular que anda pelos telhados. Com os animais de raça, há uma afetação que envenena um pouco o sentimento; com os bichos, pelo contrário, o afeto é de uma gratuidade que nos faz bem.
Aos poucos surpreendi a mim, que nunca fui de bichos, e na infância não os tive, a programá-lo em minhas preocupações.
Verificava o seu pequeno coche de alpiste, renovava-lhe a água fresca, telefonava da rua quando chovia, meio encabulado perante mim mesmo com essa minha sentimentalidade tardia, mas que havia de fazer?
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 216.)
Presenteado com um canário por seu amigo Rubem Braga, o autor revela que, no âmbito familiar,
- o fato de se tratar de um pássaro ordinário foi razão para gostarem ainda mais dele.
- notou-se alguma afetação das crianças quando diziam gostar de animais sem raça.
- aprenderam a amá-lo em razão da imortalidade dos passarinhos defendida pelo menino.
- a demora em se afeiçoarem ao passarinho se deu por conta de um amor vagaroso.
- o encantamento provocado pelo canto do passarinho se deveu à sua alta vocação natural.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Alternativa A está correta porque o texto explicita que a condição de ser um pássaro comum intensificou a afeição familiar. "A menina manteve a possessão do canário, desses comuns" e o narrador afirma: "Creio mesmo que se ama com mais força um animal sem raça, um pássaro comum..."
O autor contrapõe o amor por animais de raça, marcado por afetação, ao sentimento puro e gratuito que se forma por um bichinho sem pedigree. Essa ordinariedade elimina poses e torna o afeto mais sincero.
Por isso, no âmbito familiar, o carácter comum do canário foi razão para que o amor fosse ainda maior, manifestado como um amor vagaroso e distraído que o integrou à sua órbita afetiva.
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