Questão FC655246
Verificava o seu pequeno coche de alpiste, renovava-lhe a água fresca, telefonava da rua quando chovia, meio encabulado perante mim mesmo com essa minha sentimentalidade tardia, ma
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
O canarinho
Atacado de senso de responsabilidade, num momento de descrença de si mesmo, Rubem Braga liquidou entre os amigos a sua passarinhadab. Às crianças aqui de casa tocaram um bicudo e um canário. O primeiro não aguentou a crise da puberdade, morrendo uns dias depois. O menino se consolou, forjando a teoria da imortalidade dos passarinhos: não morrera, afirmou-nos, com um fanatismo que impunha respeito ou piedade, apenas a sua alma voara para Pirapora, de onde viera. O garoto ficou firme com a sua fé. A menina manteve a possessão do canário, desses comuns, que mais cantam por boa vontade que por vocação. Não importa, conseguiu depressa um lugar em nossa afeição.
Era um canário ordinárioa, nunca lera Bilacc, e parecia feliz em sua gaiola. Nós o amávamos desse amor vagaroso e distraído com que enquadramos um bichinho em nossa órbita afetiva. Creio mesmo que se ama com mais força um animal sem raça, um pássaro comum, um cachorro vira-lata, o gato popular que anda pelos telhadose. Com os animais de raça, há uma afetação que envenena um pouco o sentimento; com os bichos, pelo contrário, o afeto é de uma gratuidade que nos faz bem.
Aos poucos surpreendi a mim, que nunca fui de bichosd, e na infância não os tive, a programá-lo em minhas preocupações.
Verificava o seu pequeno coche de alpiste, renovava-lhe a água fresca, telefonava da rua quando chovia, meio encabulado perante mim mesmo com essa minha sentimentalidade tardia, mas que havia de fazer?
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 216.)
O autor se vale de uma personificação, com efeito de humor, quando diz
- Era um canário ordinário.
- liquidou entre os amigos a sua passarinhada.
- nunca lera Bilac.
- nunca fui de bichos.
- o gato popular que anda pelos telhados.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
No enunciado “Era um canário ordinário, nunca lera Bilac, e parecia feliz em sua gaiola”, o autor atribui ao pássaro uma ação tipicamente humana: a capacidade de ler.
Essa atribuição é a definição de personificação, ou seja, conferir características humanas a seres não humanos. Aqui o verbo “ler” transfere ao canário uma função cultural que só faz sentido para pessoas.
O efeito de humor surge da incongruência entre a imagem do pássaro simples e a ideia de que ele poderia ter lido um poeta como Bilac. A expressão provoca leve ironia e afeto ao mesmo tempo.
Assim, a frase utiliza a figura para caracterizar o canário de modo vivo e bem-humorado, tornando a descrição mais expressiva e divertida.
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