Questão FC655248
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. O exercício da crônica Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um romancis
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
O exercício da crônica
Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um romancista, na qual este é levado pelas personagens e situações que criou.
Alguns cronistas escrevem de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são sua marca registrada. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono. Outros ainda, e constituem a maioria, “tacam o peito” na máquina de escrever e cumprem o dever cotidiano da crônica como uma espécie de desespero, numa atitude de “ou vai ou racha”.
Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores; e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar a gente não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem; em contrapartida, os vaidosos castigam no pronome da primeira pessoa e colocam-se como a personagem principal de todas as situações.
Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos esses “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente logo pela manhã.
Coloque-se porém, ó leitor, ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica “não baixa”. O cronista levanta-se, senta-se, levanta de novo, chega à janela, põe um disco na vitrola, dá um telefonema, relê crônicas passadas em busca de inspiração – e nada. Aí então, se ele é cronista de verdade, ele se pega pela gola e diz: “Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre essa cadeira que está à sua frente, e que ela seja bem feita e divirta seus leitores!” E o negócio sai de qualquer maneira.
(Adaptado de: MORAES, Vinícius de. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 103-104)
O autor da crônica, ao se valer da expressão
- “prosa fiada” (1o parágrafo), qualifica uma linguagem que constitui o desafio maior de um cronista que deseja se passar por um romancista.
- “tacam o peito” (2o parágrafo), refere-se ao modo como os cronistas se aproveitam de uma inspiração sublime para escrever.
- “ou vai ou racha” (2o parágrafo), alude à autodeterminação que um cronista deve ter em sua específica rotina de escritor.
- “marginais da imprensa” (4o parágrafo), alude a seus colegas de ofício que desvirtuam a dignidade do jornalismo.
- “não baixa” (5o parágrafo), considera o caso em que o tema encontrado pelo cronista lhe parece erudito demais para ser desenvolvido.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A expressão “ou vai ou racha” funciona aqui como uma imagem coloquial de tomada de decisão: aponta para a autodeterminação exigida do cronista diante da obrigação de produzir regularmente.
No contexto do texto, essa frase complementa a ideia de esforço já sugerida por “tacam o peito”: não se trata de aguardar inspiração, mas de enfrentar a tarefa com coragem e risco, aceitando que ou se produz a crônica ou não se cumpre o compromisso.
Assim, o autor ressalta a necessidade de disciplina e iniciativa na rotina do escritor, capaz de transformar um motivo trivial em texto que agrade ao leitor.
Portanto, a expressão alude à vontade resoluta do cronista em cumprir seu ofício, mesmo sem garantias de sucesso.
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