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Questão FC655250

Mesmo as nossas cartilhas de alfabetização tinham seus mistérios: uma das lições iniciais era a frase “A macaca é má”, com a ilustração de uma macaquinha espantada e a exploração r

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Brincadeiras de criança

 

Entre as crianças daquele tempo, na hora de formar grupos pra brincar, alguém separava as sílabas enquanto ia rodando e apontando cada um com o dedo: “Lá em ci-ma do pi-a-no tem um co-po de ve-ne-no, quem be-beu mor-reu, o cul-pa-do não fui eu”. Piano? Qual? Veneno? Por quê? Morreu? Quem? Tratava-se de uma “parlenda”*, como aprendi bem mais tarde, mas podem chamar de surrealismo, enigma, senha mágica, charada...

 

Mesmo as nossas cartilhas de alfabetização tinham seus mistérios: uma das lições iniciais era a frase “A macaca é má”, com a ilustração de uma macaquinha espantada e a exploração repetida das sílabas “ma” e “ca”. Ponto. Nenhuma história? Por que era má a macaquinha? Depois aprendi que “má macaca” é um parequema**. A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial. O que, afinal, teria aprontado a má macaquinha da cartilha?

 

A grande poeta Orides Fontela usou como epígrafe de um de seus livros de alta poesia (Helianto, 1973) esta popular quadrinha de cantiga de roda:

 

“Menina, minha menina,

Faz favor de entrar na roda

Cante um verso bem bonito

Diga adeus e vá-se embora”

 

Ou seja: brincando, brincando, eis a nossa vida resumida, em meio aos densos poemas de Orides, a nossa vida, em que cada um de nós se apresenta aos outros, busca dizer com capricho a que veio no tempinho que teve e...adeus. Podem soar fundo as palavras mais inocentes: “ir-se embora”, depois da viva roda... E ir-se embora sem saber mais nada daquele copo de veneno em cima do piano ou da macaquinha da cartilha, eternamente condenada a ser má. Ir-se embora já ouvindo bem ao longe as vozes das crianças cantando na roda.

 

* parlenda: palavreado utilizado em brincadeiras infantis ou jogos de memorização.

** parequema: repetição de sons ou da sílaba final de uma palavra, no início da palavra seguinte.

 

(Adaptado de: MACEDÔNIO, Faustino. Casos de almanaque, a publicar)

 

As “brincadeiras de criança”, anunciadas pelo título do texto, são depois especificadas como

  1. jogos de palavras aparentemente sem sentido, mas que não tardam a revelar-se como formulações carregadas de claro ensinamento.
  2. construções verbais encantatórias, seja pelo mistério que encerram, seja pela utilidade ou animação das palavras de que se fazem.
  3. demonstrações da fértil imaginação infantil, que cria e elabora palavras nascidas de suas experiências lúdicas.
  4. práticas nascidas da fantasia adulta, criadas para entreter as crianças e remover delas os sentimentos do medo e da dúvida.
  5. criações linguísticas de caráter didático, cujo intuito essencial é estimular nas crianças o hábito da investigação científica.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Brincadeiras de criança são tratadas no texto como construções verbais encantatórias, isto é, formas de linguagem que atraem por seu caráter enigmático e pela vivacidade sonora.

O autor cita a parlenda “Lá em ci-ma do pi-a-no…” para mostrar o elemento de mistério, bem como a frase didática “A macaca é má” para evidenciar o jogo de sílabas e o parequema.
Esses exemplos explicitam o poder de sedução das palavras mesmo quando seu sentido não é imediato.

Ritmo, repetição e separação silábica são apresentados como recursos que dão animação às brincadeiras e as tornam úteis além do entretenimento.
A menção à poeta Orides Fontela que usa uma cantiga como epígrafe confirma a função estética e comunicativa dessas construções.

Portanto, o texto enfatiza tanto o caráter misterioso quanto a utilidade/aniação das palavras nas brincadeiras infantis.

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