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Questão FC655256

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. Por que não aprendi a tocar violão? Sempre me constituiu motivo de tristeza e humilhação esta precária musicalidade. Uns tocam

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Por que não aprendi a tocar violão? Sempre me constituiu motivo de tristeza e humilhação esta precária musicalidade. Uns tocam piano, existe até quem toque harpa. Eu, nem ao violão me afiz. E não se diga que era pouco o esforço de D. Chiquinha, minha mestra. Afinava, afinava, apertava as cravelhas, dava um dó agudíssimo na prima, depois outro dó grave no bordão...

 

Eu pegava no violão de luxo que minha madrinha de crisma mandara do Pará, ajeitava-o mal e mal no colo, começava de boa vontade: dum, dum, dum...

 

– Não! Valha-me Santa Cecília! Segunda! Mude!

 

E eu: dum, dum, dum...

 

Ai, música, divina música. D. Chiquinha carpia-se. Tanto sentimento de que ela dava exemplo, tanta devoção empregada à toa. Eu recomeçava, dócil: primeira, segunda...

 

– D. Chiquinha, fiquei com uma bolha no dedo.

 

Já não sei como a descobrimos: decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno. Cobrava dez mil-réis por mês e mais o dinheiro do bonde. Duas aulas por semana.

 

Professora de violão, o seu sonho secreto fora sempre o violino, entretanto. Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário – uma rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul. Em certos dias de bom humor e segredo, ela pegava comovida o arco e executava ao violino a valsa dos Sinos de Corneville.

 

Fora desfeita da sorte aquele meu fracasso, porque eu me supunha dotada e alimentava ambições. Chegara até a pensar, não digo em concertos, mas num brilhante recital de caridade em que aparecesse de vestido comprido (teria então uns doze anos) e, num belo contralto, cantasse ao violão certo tango argentino da minha preferência. Mas tudo neste mundo são vaidades: jamais atingi o tango argentino.

 

Voltando a D. Chiquinha: o instrumento plebeu que ensinava constituía para minha mestra uma fonte de dissabores. A começar pelo apelido que lhe davam: D. Chiquinha do Violão. Quando alguém o repetia em sua frente, ela corrigia logo, irritada: – Chiquinha do Violão, não senhor. Francisca dos Santos. Violão não é meu dono.

 

Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava. Para D. Chiquinha, a mais requintada manifestação de arte era a serenata. E dentro desse critério me ensinava visando talvez fazer de mim o que ela já fora em moça – a musa de todos os seresteiros da cidade. Sim, não só objeto passivo de canções e arpejos noturnos mas musa ativa e colaborante. O seresteiro dizia da calçada a sua trova, e lá da penumbra da alcova a donzela tomava do violão e na mesma toada respondia. Eram essas as suas lembranças mais queridas, aqueles duelos musicais, canta tu de lá, canto eu de cá – e entre os dois o grupo desvanecido dos comparsas que ajudavam no acompanhamento.

 

Nos acompanhamentos, a nossa favorita era a modinha “A mais gentil das praieiras”. Dessa eu gostava muito. Porém a mão rebelde não me acompanhava o entusiasmo.

 

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel. “A mais gentil das praieiras”. Melhores crônicas. São Paulo: Global Editora, 2012, 1a edição digital)

 

A narradora recorre à ironia na seguinte passagem:

  1. Eu, nem ao violão me afiz.
  2. Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário.
  3. decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno.
  4. Mas tudo neste mundo são vaidades.
  5. Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A ironia se concretiza no uso de “estradivário” para referir-se ao instrumento de D. Chiquinha.

O termo remete ao prestígio do fabricante Stradivarius, sinônimo de violino de excelência, e aqui é empregado de modo jocoso.

Logo em seguida o texto descreve o instrumento como uma “rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul”, criando uma incongruência entre o nome pomposo e a realidade pobre do violino.

Essa discrepância gera a ironia: a fala enobrece o objeto enquanto a descrição o rebaixa, expondo o afeto simbólico da mestra e o tom bem-humorado da narradora.

Assim, a expressão ressalta tanto a vaidade afetiva de D. Chiquinha quanto o tom crítico e irônico do narrador.

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