Questão FC655260
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. Sombra Sombra, explicava a sabida boneca Emília, de Monteiro Lobato, é ar preto. Criança, não me tranquilizei: do escuro só pod
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
Sombra
Sombra, explicava a sabida boneca Emília, de Monteiro Lobato, é ar preto. Criança, não me tranquilizei: do escuro só podiam surgir fantasmas, apagar a luz era dar uma oportunidade aos duendes e demônios do quarto. Só a luz possuía o dom confortante de tocar deste mundo os habitantes do outro.
No ginásio, estudante de Física, não me tranquilizei. Sombra é o resultado da interposição de um corpo opaco entre o observador e o corpo luminoso, sinal de que muitos corpos luminosos deixam de banhar-nos com sua luz desejável, sinal de que nos faltam felicidades, de que muitos sóis necessários se interromperam em sua viagem até nossos olhos.
Não perguntar o que um homem possui, mas o que lhe falta. Isso é sombra. Não indagar de seus sentimentos, mas saber o que ele não teve a ocasião de sentir. Sombra. Não se importar com o que ele viveu, mas prestar atenção à vida que não chegou até ele, que se interrompeu de encontro a circunstâncias invisíveis, imprevisíveis. A vida é um ofício de luz e trevas. Enquadrá-lo em sua constelação particular, saber se nasceu muito cedo para receber a luz da estrela ou se chegou ao mundo quando de há muito se extinguiu o astro que deveria iluminá-lo.
Ontem vi uma menininha descobrindo sua sombra. Ela parava de espanto, olhava com os olhos arregalados, tentava agarrar a sombra, andava mais um pouco, virava de repente para ver se o seu fantasma ainda a seguia. Era a representação dramática de um poema infantil de Robert Stevenson, no qual uma menininha vai e vem, rodeando, saltando, gesticulando com seus bracinhos diante de sua sombra, implorando por uma explicação impossível, dançando um balé que será a sua própria vida.
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 211-212)
Nas vezes em que se refere à luz ou à iluminação, o cronista
- se restringe aos seus aspectos físicos, evitando se valer de conotações simbólicas, afetivas ou figurativas.
- coloca esse fenômeno no mesmo patamar simbólico e negativo em que tratou as regiões das sombras.
- considera os aspectos simbólicos positivos da clarificação, em contraposição ao fenômeno que se lhe opõe.
- demonstra que a ilusão trazida pelos momentos de luz torna assustadoras as trevas da nossa vida.
- identifica esse fenômeno como uma simples expectativa humana, ao contrário da naturalidade das sombras.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa aponta que o cronista trata a luz em sentido simbólico positivo, contrapondo-a ao fenômeno oposto. Essa leitura é confirmada pelo texto, que não usa a luz apenas em sentido físico, mas como imagem de clareza e conforto.
Exemplo claro está em "Só a luz possuía o dom confortante de tocar deste mundo os habitantes do outro." Aqui a luz aparece como elemento que esclarece e acalenta, enquanto a sombra representa ausência, interrupção e privação: "sinal de que muitos corpos luminosos deixam de banhar-nos com sua luz desejável".
Portanto, o cronista organiza uma relação antagônica: a iluminação simboliza o positivo da compreensão e do afeto; a sombra simboliza o que falta, o que foi impedido de chegar até a pessoa.
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