Questão FC655267
Menino Jesus de Praga?
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se o amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.(e)
Sempre alguém tinha uma frase(b)
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.(d)
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.(c)
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.(a)
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)
O trecho sublinhado expressa um desejo em:
- “Agora, a morte tem limites.”
- “Sempre alguém tinha uma frase”
- “Mas ninguém tem culpa.”
- “Afinal, a vida é um upa.”
- “Descansou. Partiu. Deus o tenha.”
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
“Deus o tenha.” funciona como uma oração desiderativa: expressa o desejo do enunciador de que o falecido seja acolhido por Deus. A forma está reduzida por elipse do conjunção que, isto é, entende‑se “(Que) Deus o tenha”.
Gramaticalmente, o verbo tenha aparece no modo subjuntivo, modo habitualmente empregado para marcar hipóteses, desejos e possibilidades. Essa marca morfossintática confirma a força desejativa da locução.
Pragmáticamente, a expressão é uma fórmula de condolência cujo objetivo é manifestar esperança e compaixão pelo destino do morto. Por isso ela se classifica corretamente como manifestação de desejo.
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