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Questão FC655269

Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

O animal que se tornou um deus

 

Há 70 mil anos, o Homo sapiens ainda era um animal insignificante cuidando da sua própria vida em algum canto da África.

 

Nos milênios seguintes, ele se transformou no senhor de todo o planeta e no terror do ecossistema. Hoje, ele está prestes a se tornar um deus, pronto para adquirir não só a juventude eterna como também as capacidades divinas de criação e destruição.

 

Infelizmente, até agora o regime dos sapiens sobre a Terra produziu poucas coisas das quais podemos nos orgulhar. Nós dominamos o meio à nossa volta, aumentamos a produção de alimentos, construímos cidades, fundamos impérios e criamos grandes redes de comércio. Mas diminuímos a quantidade de sofrimento no mundo? Repetidas vezes, os aumentos gigantescos na capacidade humana não necessariamente melhoraram o bem-estar dos sapiens como indivíduos e geralmente causaram enorme sofrimento a outros animais.

 

Apesar das coisas impressionantes de que os humanos são capazes de fazer, nós continuamos sem saber ao certo quais são nossos objetivos e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre. Avançamos de canoas e galés a navios a vapor e naves espaciais – mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação.

 

Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

 

(Adaptado de: HARARI, Yuval Noah. Sapiens – Uma breve história da humanidade.

Trad. Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L&PM, 2018, p. 427-428)

 

Num apanhado fulminante dos últimos 70 mil anos do Homo sapiens, o autor considera que

  1. nossa civilização está em contínuo processamento, segundo o roteiro original que nos permitiu, já de início, adquirir o controle da vida do nosso planeta.
  2. os evidentes ganhos históricos nesse longo período manifestaram-se, sobretudo, no campo da distribuição da renda e da efetiva garantia de igualdade de oportunidades sociais.
  3. a indiscutível progressão dos meios de controle do nosso planeta não vem se traduzindo em vantagem para o nível geral de vida e para a realização da felicidade humana.
  4. a escolha de metas demasiadamente rigorosas para o nosso processo civilizatório faz com que se deixem de lado valores essenciais como a improvisação e a criatividade.
  5. nossa condição de autossuficiência divina acaba por nos afastar das responsabilidades morais e dos valores religiosos que constituíram a base do nosso projeto civilizacional.
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Comentário do professor

O autor sustenta que a intensa progressão dos meios com que dominamos o planeta não se traduz automaticamente em ganhos para o nível geral de vida nem na realização da felicidade humana.

No texto, mesmo após séculos de avanços técnicos e de controle ambiental, os sapiens continuam “insatisfeitos” e sem direção clara; a maior capacidade humana “não necessariamente melhorou o bem‑estar dos sapiens como indivíduos”.

Além disso, essa ampliação de poder costuma acarretar sofrimento para outros seres e para o ecossistema, o que mostra que crescimento de poder e tecnologia não equivalem a melhoria moral ou emocional da vida humana.

Portanto, a alternativa expressa justamente a crítica central do autor: progresso instrumental sem garantia de maior felicidade ou qualidade de vida.

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