Questão FC655273
Vocação e ambição Machado de Assis tem um conto admirável – “Um homem célebre” – que narra a história de um famoso e prestigiado compositor popular do Rio do século XIX, um tal de
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Vocação e ambição
Machado de Assis tem um conto admirável – “Um homem célebre” – que narra a história de um famoso e prestigiado compositor popular do Rio do século XIX, um tal de Pestana, que em vez de gozar o sucesso de cada uma de suas composições ligeiras e dançantes, vivia atormentado por não compor nada à altura de um Mozart, de um Beethoven. Cada vez que uma composição sua atingia em cheio o gosto popular, o maestro oculto que havia nele sofria o sucesso fácil como uma sentença de morte.
Machado resumiu assim a vida dramática desse músico ao mesmo tempo celebrado e infeliz: “Eterna peteca entre a ambição e a vocação”.
A frase é forte: o jogo da peteca realiza o sofrido movimento de pêndulo de cada divisão nossa, que nunca encontra um ponto de equilíbrio. Ser jogado eternamente de um lado para outro, sem repouso, é de enlouquecer. É a oposição contínua entre duas forças que nos dividem e fazem sofrer: a força que está na inclinação natural para atender a uma vocação já instalada em nós e a força pela qual pretendemos atingir uma altura que está longe dos nossos recursos. No caso de Pestana, a aclamação pública que cada música sua atingia não compensava de modo algum a falta de realização de seus mais altos projetos pessoais.
Com esse conto, Machado lembra que há quem não se contente em ser uma celebridade, sobretudo quando julga vazia essa celebração; há ainda quem busque alcançar a aprovação pública pelo valor efetivo de uma mais alta realização criativa. Essa busca, para desgraça nossa, é sofrida, e pode nos levar a dançar de um lado para outro. A saída estaria em identificarmos precisamente qual é a nossa vocação, para estabelecermos a partir dela os contornos da nossa ambição.
(TOLEDO, Cristiano. A publicar)
O drama vivido por Pestana nasce, em grande parte, do fato de que esse compositor
- dispõe-se a trilhar seriamente o caminho da composição clássica, mas hesita quanto ao sucesso que terá nessa empreitada.
- reconhece como provada sua capacidade inata para a música mais alta, afligindo-se apenas por se demorar em reafirmá-la.
- recrimina-se pelo fato de ter trocado definitivamente sua aspiração maior por uma realização mais modesta.
- considera que há níveis diferentes e aceitáveis de criação musical, embora ele não tenha se estabelecido em nenhum deles.
- hierarquiza os níveis de criação artística, e sofre por atingir sua própria consagração naquele que menos lhe importa.
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Comentário do professor
Hierarquiza os níveis de criação artística porque atribui valor superior às obras de Mozart e Beethoven em relação às suas músicas populares. Essa escala de valores explica por que sua consagração pública o angustia: ele é celebrado justamente na esfera que menos estima.
O texto mostra que Pestana compõe com sucesso peças ligeiras e dançantes, o que revela sua vocação prática. Ao mesmo tempo alimenta a ambição de produzir música culta de alta estirpe. Essa diferença entre realização efetiva e ideal projetado produz choque interno.
A consequência é o sofrimento descrito como “eterna peteca entre a ambição e a vocação”. Em suma, ele sofre porque alcança a consagração no nível que despreza, não naquele que deseja como prova de seu valor artístico.
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