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Questão FC655278

“Acontece em toda parte, mas no Rio tem um jeito especial de acontecer que me emociona mais.” Assim começa Rubem Braga uma de suas admiráveis crônicas, reunidas no Um pé de milho e

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

“Acontece em toda parte, mas no Rio tem um jeito especial de acontecer que me emociona mais.” Assim começa Rubem Braga uma de suas admiráveis crônicas, reunidas no Um pé de milho e o Um pé de milho é para mim a melhor coisa desta semana de que me compete dar contas ao leitor. Portanto, e sem vacilação, lede o Um pé de milho; e lede-o à boa e santa maneira, não solicitando ao autor um exemplar, que o famoso Braga é, como qualquer um de nós, um proletário das letras.

 

Mas por que disse “cronista”?(d) Grande poeta é o que ele é, e grande contista que, por uma imposição do temperamento, se furta à maçada de escrever contos.(e) Não sei de muitos poemas, em nossa lira de hoje, que se comparem a “Passeio à infância”,(b) “Da praia”, “Choro”, coisas que o Braga displicente foi largando pelos jornais. Por sua vez, “Aula de inglês” e “Eu e Bebu na hora neutra da madrugada” são contos com preguiça de se tornarem contos. Já em “História do caminhão”, a identificação do gênero será mais complexa, pois a composição é atravessada por uma corrente de surrealismo que conduz o Braga pelos rumos mais extraordinários, sem que este aparentemente a controle. Controla, apesar de tudo.(c) Em suma, cronista, contista, poeta, está-se vendo que o que ele é verdadeiramente é um dos nossos mais altos escritores.(a) Um Machado de Assis tendo a mais a poesia, a dolência e a pura comoção humana que são dons peculiares ao Braga.

 

(ANDRADE, Carlos Drummond de. In: Amor nenhum dispensa uma gota de ácido.

Hélio de Seixas Guimarães (org.). São Paulo: Três Estrelas, 2019)

 

O autor questiona a si mesmo no seguinte trecho:

  1. está-se vendo que o que ele é verdadeiramente é um dos nossos mais altos escritores.
  2. Não sei de muitos poemas, em nossa lira de hoje, que se comparem a “Passeio à infância”
  3. Controla, apesar de tudo.
  4. Mas por que disse “cronista”?
  5. por uma imposição do temperamento, se furta à maçada de escrever contos.
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Gabarito

D

Comentário do professor

"Mas por que disse 'cronista'?"

Nesse enunciado o autor pratica um questionamento sobre sua própria escolha terminológica. Ao formular a pergunta, Drummond interrompe a exposição crítica para verificar a precisão do rótulo atribuído a Rubem Braga.

Trata-se de uma estratégia de autorreferência e reflexão crítica: o autor não aceita passivamente o que disse antes, mas reavalia a classificação do sujeito literário. A pergunta revela dúvida e sensibilidade à complexidade genérica de Braga, que transita entre crônica, poesia e conto.

Formalmente, é uma pergunta retórica que aproxima leitor e crítico, convidando à reconsideração do termo usado e sublinhando a postura analítica do enunciador.

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