Questão FC655317
Ah, senhora viscondessa! Que solidão irremediável não sentiu dentro de vossas grossas molduras douradas. Olhais para a frente, dura, firme. Lá fora as mangueiras e jabuticabeiras e
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Fim de semana na fazenda
São fazendas do fim do século XIX, não mais. Seus donos ainda estão lá: já não se balançam, é verdade, nas cadeiras austríacas da varanda nem ouvem a partida desse bando de maritacas que se muda para o morro do outro lado da várzea.
Ou talvez ouçam, quem sabe. Mas estão hirtos dentro de suas molduras, nas paredes da sala. Assim, rígidos, pintados a óleo, eles parecem reprovar nossos uísques e nossas conversas. Mas eis que o amigo Mário Cabral toca um samba no velho piano de cauda, e creio que eles gostam, talvez achem uma interessante novidade musical vinda da capital do Império. Depois Mário ataca uma velha música francesa − “Solitude” − e creio bem que vi, ou senti, a senhora viscondessa suspirar de leve.
Ah, senhora viscondessa! Que solidão irremediável não sentiu dentro de vossas grossas molduras douradas. Olhais para a frente, dura, firme. Lá fora as mangueiras e jabuticabeiras estão floridas, na pompa da manhã. Um beija-flor corta o retângulo da janela no seu voo elétrico e se imobiliza no ar, zunindo. Onde está o senhor visconde?
Ele está em outra parede, também duro, de uniforme e espada. Não olha a esposa. Os dois não se olham. Alguma intriga? Não. Apenas eles estão cansados de estar casados, cansados de estar mortos, cansados de estar pintados, cansados de estar emoldurados e pendurados − e tão cansados e enfadados que há mais de sessenta anos não chupam uma só jabuticaba, sequer uma.
(Adaptado de: BRAGA, Rubem. Os sabiás da crônica. Antologia.
Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 80)
O cronista considera o expressivo contraste que há entre
- o livre voo das maritacas e o samba tocado pelo amigo Mário.
- o florescimento das árvores e o voo de um beija-flor.
- a rigidez dos retratados e a pintura a óleo emoldurada.
- a paralisia no passado e o desfrute de uma jabuticaba.
- o tédio dos casamentos e a incomunicabilidade entre os retratos.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Paralisia e desfrute formam o contraste central do trecho: os donos da fazenda estão retratados, imobilizados e mortos dentro das molduras, enquanto a jabuticaba aparece como imagem do ato vivo e sensorial.
O cronista enumera a inação com expressões como "cansados de estar mortos, cansados de estar pintados, cansados de estar emoldurados e pendurados", que revela uma existência fixa e privada de movimentos e prazeres.
Em contraponto, a referência a que "há mais de sessenta anos não chupam uma só jabuticaba" privilegia a jabuticaba como símbolo do paladar, do gesto simples e da vida corporal que lhes foi negada.
Assim, a oposição é efetiva porque coloca o estado de imobilidade histórica dos retratos frente à possibilidade concreta de fruição, evidenciando o distanciamento entre passado congelado e experiência vital.
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