Questão FC655320
O futuro encolheu Nós, modernos, acordando, voltamo-nos sobretudo para o futuro. Definimo-nos pela capacidade de mudança − não pelo que somos, mas pelo que poderíamos vir a ser: pr
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
O futuro encolheu
Nós, modernos, acordando, voltamo-nos sobretudo para o futuro. Definimo-nos pela capacidade de mudança − não pelo que somos, mas pelo que poderíamos vir a ser: projetos e potencialidades. O tempo de nossa vida é o futuro. Em nossos despertares cotidianos, podemos ter uma experiência fugaz e minoritária do presente, mas é a voz do futuro que nos acorda e nos faz sair da cama.
A questão é: qual futuro? Ele pode ser de longo prazo: desde o apelo do dever de produzir um mundo mais justo até o medo das águas que subirão por causa do efeito estufa. Ou então ele pode ser imediato: as tarefas do dia que começa, as necessidades do fim do mês, a perspectiva de um encontro poucas horas mais tarde.
Do século 17 ao começo do século 20, o tempo dominante na experiência de nossa cultura parece ter sido um futuro grandioso − projetos coletivos a longo prazo. Hoje prevalece o futuro dos afazeres imediatos. Nada de utopia, somente a agenda do dia. Afinal, aqueles futuros de outrora, gloriosos, revelaram-se como barbáries do século.
Ainda assim, o futuro encolhido de hoje parece um pouco inquietante. É que o futuro não foi inventado só para espantar a morte. O futuro nos serve também para impor disciplina ao presente. Ele é nosso árbitro moral. Esperamos dele que avalie nossos atos. Em suma: a qualidade de nossos atos de hoje depende do futuro com o qual sonhamos. Nossa conduta tenta agradar ao tribunal que nos espera. Receio que futuros muito encolhidos comandem vidas francamente mesquinhas.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 88-89)
No, o autor faz ver um paradoxo do nosso tempo, quando constata que
- nosso futuro se redefine na imediação da vida cotidiana.
- nossas utopias modernas foram barbáries do passado mais remoto.
- uma agenda fantasiosa nos desvia dos afazeres práticos.
- uma inquietação nova surge a cada velha utopia atualizada.
- uma vida mesquinha pode decorrer da expansão das expectativas.
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Gabarito
A
Comentário do professor
O futuro encolheu resume a observação central: estamos orientados para o tempo que vem, mas a que tipo de futuro nos referimos?
O autor mostra que o futuro deixou de ser um projeto coletivo de longo prazo e passou a ser a imediação do cotidiano — tarefas, contas e compromissos imediatos.
Essa mudança redefine a própria noção de futuro: ele não é mais horizonte coletivo de sentido, mas agenda próxima que organiza nossas ações do dia a dia.
Além disso, o texto aponta função normativa do futuro como disciplina moral. Se o futuro é curto, o tribunal que avalia nossos atos também é curto, o que pode favorecer condutas mais limitadas e mesquinhas.
Portanto, a alternativa sintetiza com precisão essa transformação: nosso futuro se redefine na imediação da vida cotidiana.
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