FC ConcursosFC Concursos

Questão FC655336

O que será da escrita sem solidão?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

O que será da escrita sem solidão?

 

Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatadoa, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.

 

Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. “A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada”, ela diz. “Aquilo sem o qual já não vemos nada.” Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoalb seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.

 

Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversãoc, um segredo.

 

A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursosd para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.e

 

(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)

 

Um segmento do texto tem seu sentido corretamente interpretado no seguinte caso:

  1. Penso mais num silêncio dilatado = Cogito sobretudo um silenciar expandido
  2. algum grau de asilo pessoal = um certo nível de intimidação recolhida
  3. como se escrever fosse uma subversão = sendo de tal forma penosa uma escritura
  4. o mundo dispõe de fartos recursos = retiram-se da vida inúmeros expedientes
  5. trará essa marca indelével= advirá desse estigma insondável
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

A

Comentário do professor

Penso mais equivale a cogito sobretudo porque ambos assinalam prioridade ou predomínio da ideia. A troca mantém a função modal da expressão: não se trata de comparar quantidades, mas de indicar aquilo em que o eu-lírico concentra seu pensamento.

Silêncio dilatado e um silenciar expandido remetem à mesma imagem: a ideia de um silêncio ampliado no tempo e no espaço. Dilatado e expandido são sinônimos aqui, e a transformação de substantivo (silêncio) em substantivado verbal (silenciar) não altera o sentido geral, apenas modifica o foco estilístico da expressão.

Portanto, a equivalência é semântica e funcional: ambas as formulações transmitem a primazia da concepção de um silêncio vasto e prolongado.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo