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Questão FC655351

Leia o texto para responder à questão. Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, e

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Leia o texto para responder à questão.

 

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro- te.

 

Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: − amor da glória.

 

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição. Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.

 

(ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

Ao afirmar Eu tinha a paixão do arruído (2º parágrafo), o narrador confessa que

  1. almejara curar-se da melancolia.
  2. precisara dissimular suas verdadeiras intenções.
  3. mantivera em segredo um efeito adverso do medicamento.
  4. visara à vantagem financeira como fim último da invenção.
  5. desejara atingir a notoriedade.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Resposta: Ao dizer Eu tinha a paixão do arruído, o narrador assume que buscava visibilidade pública, isto é, a notoriedade.

O próprio texto explicita essa motivação: ele confessa gostar de "ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas".

Além disso, qualifica essa inclinação como sede de nomeada e até resume como amor da glória, termos que reforçam o desejo de fama mais do que qualquer outra finalidade.

Portanto, a expressão "paixão do arruído" funciona como autodeclaração de vontade de ser reconhecido e divulgado publicamente.

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