Questão FC655359
Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesit
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.
[Vida literária]
Aqueles que fazem versos e já atingiram a idade madura costumam receber cartas de outros que também os fazem, mas estão na casa dos vinte. Parece que esse é um dos prêmios (muito discutíveis) de envelhecer: ser solicitado pelos mais novos a dar opiniões sobre os vagidos do talento. O moço apresenta-se confiante, às vezes entusiástico, sempre respeitoso; o “mestre” responde benévolo, paciente, minucioso, interessado em pormenores biográficos, ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia: “Escreva sempre, meu filho.” A isto se chama vida literária.
Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesitação do jovem, dissolvê-la em certeza, encaminhá-la a rumo certo? Haverá utilidade nessa conversa de gerações?
É certo que cinco ou dez anos depois a receita do mais velho foi esquecida e o mestre com ela. Sucede também que após esse lapso de tempo o mestre seja, não esquecido, mas negado. Ataca-se o mestre, descobre-se que ele o não é. Noventa (que digo? cem por cento) de nossas admirações da adolescência resolvem-se em indiferença, vergonha ou desprezo. Na força do adulto, vingase o homem das debilidades do período de crescimento físico e intelectual, negando o que adorara. Os mestres de poesia não escapam a essa contingência, e ao escreverem uma “carta ao jovem poeta” deveriam meditar bem na escolha das palavras e no prazo de validade do sortilégio.
Mas o pessimismo da verificação não deve secar no homem de cinquenta o terno interesse pelo rapaz de vinte. O admirador juvenil é tão autêntico e honesto quanto o lapidador de vinte e cinco ou trinta. Cada idade tem sua moral e sua sensibilidade.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Passeios na ilha. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 113-114)
Ao abordar a relação que costuma existir entre jovens escritores e escritores maduros, Carlos Drummond de Andrade considera que
- a consagração dos autores veteranos desde sempre desperta nos mais jovens um ressentido anseio de superação.
- a permanência da admiração dos autores estreantes pelos já reconhecidos depende da acolhida que estes dão àqueles.
- o dinamismo dessa relação se mostra quando os mais velhos recebem as proveitosas lições dos mais jovens.
- a instabilidade dessa relação se mostra quando os novos escritores passam a ignorar ou a menosprezar a quem reverenciaram.
- o despeito dos jovens escritores pelo sucesso dos velhos mestres relativiza-se quando também eles se consagram.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Carlos Drummond descreve uma relação que começa com solicitude e admiração e, com o tempo, se deteriora: é disso que trata a alternativa D.
O autor afirma que, após "cinco ou dez anos", a orientação do mais velho é esquecida e o mestre chega a ser negado. Ele diz que grande parte das admirações juvenis se resolve em indiferença, vergonha ou desprezo.
Esses trechos mostram que a relação não é estável, porque a estima inicial dos jovens se transforma em desprestígio. Assim, a instabilidade se manifesta quando os novos escritores passam a ignorar ou a menosprezar aqueles a quem antes reverenciavam.
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