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Questão FC655360

Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesit

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.

 

[Vida literária]

 

Aqueles que fazem versos e já atingiram a idade madura costumam receber cartas de outros que também os fazem, mas estão na casa dos vinte. Parece que esse é um dos prêmios (muito discutíveis) de envelhecer: ser solicitado pelos mais novos a dar opiniões sobre os vagidos do talento. O moço apresenta-se confiante, às vezes entusiástico, sempre respeitoso; o “mestre” responde benévolo, paciente, minucioso, interessado em pormenores biográficos, ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia: “Escreva sempre, meu filho.” A isto se chama vida literária.

 

Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesitação do jovem, dissolvê-la em certeza, encaminhá-la a rumo certo? Haverá utilidade nessa conversa de gerações?

 

É certo que cinco ou dez anos depois a receita do mais velho foi esquecida e o mestre com ela. Sucede também que após esse lapso de tempo o mestre seja, não esquecido, mas negado. Ataca-se o mestre, descobre-se que ele o não é. Noventa (que digo? cem por cento) de nossas admirações da adolescência resolvem-se em indiferença, vergonha ou desprezo. Na força do adulto, vingase o homem das debilidades do período de crescimento físico e intelectual, negando o que adorara. Os mestres de poesia não escapam a essa contingência, e ao escreverem uma “carta ao jovem poeta” deveriam meditar bem na escolha das palavras e no prazo de validade do sortilégio.

 

Mas o pessimismo da verificação não deve secar no homem de cinquenta o terno interesse pelo rapaz de vinte. O admirador juvenil é tão autêntico e honesto quanto o lapidador de vinte e cinco ou trinta. Cada idade tem sua moral e sua sensibilidade.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Passeios na ilha. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 113-114)

 

No último parágrafo do texto, adverte-se que

  1. os malogrados impulsos da juventude devem ser considerados anomalias compreensíveis.
  2. os jovens exigentes devem admitir que é natural haver maior sinceridade entre os velhos.
  3. as fases da vida precisam ser reconhecidas pelas características que lhes são próprias.
  4. é preciso admitir o impulso pessimista de que se nutrem os mais velhos diante dos jovens.
  5. as diversas idades humanas expõem divergências morais efetivamente inaceitáveis.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Cada idade tem sua moral e sua sensibilidade. Com essa frase, o autor conclui que as fases da vida não são equivocados temporários, mas modos distintos de sentir e agir, cada um com suas regras e valores.

Assim, a alternativa correta destaca que é preciso reconhecer cada fase pelos traços que lhe são próprios. O texto aconselha o adulto a preservar o interesse pelo jovem, entendendo que a admiração e os juízos juvenis têm outra natureza, não sendo inferiores nem fraudulentos.

Em suma, a advertência é de tolerância interpretativa: aceitar a diferença entre idades e avaliar comportamentos segundo a sensibilidade e a moral de cada etapa, em vez de impor padrões de uma para outra.

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