FC ConcursosFC Concursos

Questão FC655361

Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesit

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.

 

[Vida literária]

 

Aqueles que fazem versos e já atingiram a idade madura costumam receber cartas de outros que também os fazem, mas estão na casa dos vinte. Parece que esse é um dos prêmios (muito discutíveis) de envelhecer: ser solicitado pelos mais novos a dar opiniões sobre os vagidos do talento. O moço apresenta-se confiante, às vezes entusiástico, sempre respeitoso; o “mestre” responde benévolo, paciente, minucioso, interessado em pormenores biográficos, ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia: “Escreva sempre, meu filho.” A isto se chama vida literária.

 

Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesitação do jovem, dissolvê-la em certeza, encaminhá-la a rumo certo? Haverá utilidade nessa conversa de gerações?

 

É certo que cinco ou dez anos depois a receita do mais velho foi esquecida e o mestre com ela. Sucede também que após esse lapso de tempo o mestre seja, não esquecido, mas negado. Ataca-se o mestre, descobre-se que ele o não é. Noventa (que digo? cem por cento) de nossas admirações da adolescência resolvem-se em indiferença, vergonha ou desprezo. Na força do adulto, vingase o homem das debilidades do período de crescimento físico e intelectual, negando o que adorara. Os mestres de poesia não escapam a essa contingência, e ao escreverem uma “carta ao jovem poeta” deveriam meditar bem na escolha das palavras e no prazo de validade do sortilégio.

 

Mas o pessimismo da verificação não deve secar no homem de cinquenta o terno interesse pelo rapaz de vinte. O admirador juvenil é tão autêntico e honesto quanto o lapidador de vinte e cinco ou trinta. Cada idade tem sua moral e sua sensibilidade.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Passeios na ilha. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 113-114)

 

Considerando-se o contexto, está adequadamente interpretado o sentido de uma expressão do texto em:

  1. os vagidos do talento (1º parágrafo) = as explosões de uma vocação autêntica
  2. sob um verniz de simpatia (1º parágrafo) = com o brilho de uma animada acolhida
  3. servir à hesitação do jovem (2º parágrafo) = curvar-se diante da angústia juvenil
  4. vinga-se o homem das debilidades (3º parágrafo) = retrai-se o ser diante de seus lapsos
  5. prazo de validade do sortilégio (3º parágrafo) = limite da vida útil do encantamento
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

Errado

Comentário do professor

Prazo de validade do sortilégio significa aqui o limite temporal da admiração que os jovens sentem pelos escritores mais velhos. É uma expressão metafórica que associa encanto a um prazo de duração.

O termo sortilégio remete a encantamento ou fascinação, isto é, à atração que o jovem sente diante do "mestre". Já prazo de validade sublinha que esse encanto não é eterno, tem uma vida útil.

No contexto do texto, o autor afirma que, passados alguns anos, essa admiração costuma desaparecer. Assim, interpretar a expressão como "limite da vida útil do encantamento" corresponde ao uso metafórico e à ideia central do trecho.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo