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Questão FC655363

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. Em torno da pena de morte Numa crônica anterior, comentei um crime bárbaro e evoquei figuras de criminosos repugnantes. Alguns

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Em torno da pena de morte

 

Numa crônica anterior, comentei um crime bárbaro e evoquei figuras de criminosos repugnantes. Alguns leitores observaram que, de qualquer forma, explicações sociológicas ou psicológicas não valem como desculpas para crimes atrozes. E perguntaram: “Você é contra ou a favor da pena de morte?”

 

Imagine que um deus, um poder absoluto ou um texto sagrado declarem que quem roubar ou assaltar será enforcado, ou terá a mão cortada. Nesse caso, puxar a corda, afiar a faca ou assistir à execução seria simples, pois a responsabilidade moral do veredito não estaria conosco. Nas sociedades tradicionais em que a punição é decidida por uma autoridade superior a todos, as execuções podem ser públicas: a coletividade festeja o soberano que se encarregou da justiça – que alívio!

 

A coisa é mais complicada na modernidade, em que os cidadãos comuns (como você e eu) são a fonte de toda a autoridade jurídica e moral. Hoje, no mundo ocidental, se alguém é executado, o braço que mata é, em última instância, o dos cidadãos – o nosso. Mesmo que o condenado seja indiscutivelmente culpado, pairam mil dúvidas. Matar um condenado à morte não é mais uma festa, pois é difícil celebrar o triunfo de uma moral tecida de perplexidades. As execuções acontecem em lugares fechados, diante de poucas testemunhas: há uma espécie de vergonha. Essa discrição é apresentada como um progresso: os povos civilizados não executam seus condenados nas praças. Mas o dito progresso é, de fato, um corolário das incertezas éticas da nossa cultura.

 

São questões a considerar, creio, antes de responder à pergunta inicial, que me fizeram alguns leitores.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 94-95)

 

Em contraponto à radicalidade de posições sobre a questão da pena de morte, o autor lembra a

  1. irreversibilidade jurídica dessa forma de penalização.
  2. moralidade assegurada pelo atual estágio da civilização.
  3. impossibilidade de se determinar as últimas consequências.
  4. fragilidade dos valores morais que vigem na modernidade.
  5. desvantagem de se fixar num valor ético já consolidado.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa aponta corretamente que o autor evidencia a fragilidade dos valores morais na modernidade. O texto contrapõe sociedades tradicionais, onde a punição vinha de uma autoridade superior e gerava celebração coletiva, ao mundo contemporâneo, em que a legitimidade do castigo emana dos próprios cidadãos.

Isso desloca a responsabilidade para nós e instala uma atmosfera de insegurança: execuções são realizadas em segredo, há vergonha em matar, e o autor menciona que pairam “mil dúvidas”.

Assim, a crônica não busca defender ou atacar a pena de morte de forma dogmática, mas mostrar que, diante dessa incerteza ética, os valores morais vigentes são menos sólidos, o que torna a alternativa D a leitura mais fiel do texto.

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