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Questão FC655366

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. Retrato de um amigo A cidade que era amada por nosso amigo continua a mesma: há algumas mudanças, mas coisa pouca. Nossa cidade

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Retrato de um amigo

 

A cidade que era amada por nosso amigo continua a mesma: há algumas mudanças, mas coisa pouca. Nossa cidade se parece – só agora nos damos conta disso – com o amigo que perdemos e que a amava; ela é, assim como ele era, intratável em sua operosidade febril e obstinada; e é ao mesmo tempo desinteressada e disposta ao ócio e ao sonho.

 

Na cidade que se parece com ele, sentimos nosso amigo reviver por todos os lados: em cada esquina e em cada canto achamos que de repente possa aparecer sua alta figura de capote escuro cintado, o rosto escondido na gola, o chapéu enterrado nos olhos. O amigo media a cidade com seu longo passo, obstinado e solitário. Ele entocava nos cafés mais apertados e fumarentos, enchia folhas e folhas com sua caligrafia larga e rápida, e celebrava a cidade em seus versos.

 

Seus versos ressoam em nossos ouvidos quando retornamos à cidade ou quando pensamos nela. Nosso amigo vivia na cidade como um adolescente e até o final viveu assim. Seus dias eram longuíssimos como os dos adolescentes, e cheios de tempo; sabia achar espaço para estudar e escrever, para ganhar a vida e vadiar; e nós, que resfolegávamos divididos entre preguiça e produtividade, perdíamos horas na incerteza de decidirmos se éramos preguiçosos ou produtivos. Mesmo sua tristeza nos parecia meio juvenil, como a melancolia voluptuosa e distraída do rapaz que ainda não tocou a terra e se move no mundo árido e solitário dos sonhos.

 

(Adaptado de GINZBURG, Natalia. As pequenas virtudes. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2015, p. 24-26)

 

Ao considerar as relações entre seu amigo e a sua cidade, a autora recorre a alguns paradoxos, como o que ocorre entre os segmentos:

  1. há algumas mudanças // só agora nos damos conta (1º parágrafo)
  2. operosidade febril // disposta ao ócio (1º parágrafo)
  3. o amigo que perdemos // e que a amava (1º parágrafo)
  4. enchia folhas e folhas // caligrafia larga e rápida (2º parágrafo)
  5. ainda não tocou a terra // mundo árido e solitário dos sonhos (3º parágrafo)
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Gabarito

B

Comentário do professor

Paradoxo: a alternativa corresponde à oposição entre operosidade febril e disposta ao ócio, duas ideias semanticamente contraditórias que aparecem juntas para definir a mesma realidade.

A expressão operosidade febril remete a intensa atividade, zelo e impulso produtivo; disposta ao ócio indica inclinação à inação, lazer e contemplação. Colocadas lado a lado, revelam uma tensão interna.

Essa justaposição enfatiza a complexidade do amigo e da cidade: seres que alternam ou incorporam simultaneamente trabalho empenhado e uma capacidade para o descanso sonhador.

O efeito retórico é mostrar ambivalência psicológica e atmosférica, enriquecendo a caracterização sem reduzir o sujeito a uma única qualidade.

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