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Questão FC655406

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. Solo para flauta Escrever. Tenho que escrever. Neste momento é necessário, mas não se trata de necessidade. Domingo, por exempl

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Solo para flauta

 

Escrever. Tenho que escrever. Neste momento é necessário, mas não se trata de necessidade. Domingo, por exemplo, não tenho obrigação de escrever, e entretanto escrevo. Quando entro em férias, escrevo mais que quando em atividade remunerada. Donde viria isso, essa compulsão inefável e cruel de que sou vítima e cúmplice desde garotinho? Não me consta que um operário sinta prazer em trabalhar durante a telenovela das oito. No entanto, eu trabalho vendo novela de TV. Tenho sempre um caderninho de apontamentos e uma esferográfica. Não desligo de minha atividade nem mesmo durante os comerciais.

 

Neste momento, luto contra uma sonolência que me visita em horas mais ou menos previsíveis. Tem ela afinidade com o desfalecimento. Estando em convalescença, minado o meu organismo pela ingestão de produtos químicos, o sono se aproxima com promessas de recuperação, mas eu recuso a sua meiga imposição. Não me agrada dormir no sentido em que as pessoas geralmente dormem, obedientes à tirania do relógio e à ordem das atividades sociais produtivas. Ser noturno, encontro então uma doçura que poucos reconhecem e aproveitam, na penumbra, na surdina, no radioso silêncio. Escrevo.

 

Haverá ainda alguma compreensão para uma literatura de sutilezas, de constituição tênue, quase tão somente cores e sons macios, sigilosos? Ah, quanta saudade tenho da aurora da minha vida...Era feliz o mundo exterior, o grato espanto de saber que Deus povoara o mundo com felicidades ingênuas...

 

Escrevo, escrevo. Continuarei.

 

(Adaptado de: OLIVEIRA, José Carlos. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 307-308)

 

O ato de escrever constitui, para esse cronista, uma compulsão inefável, ou seja, uma

  1. obrigação amena, à qual ele se rende em virtude do profissionalismo com que ele encara seu ofício de escritor.
  2. paixão desmedida, em razão da qual por vezes chega a adoecer, deixando de sentir o prazer de seu ofício.
  3. imposição prazerosa, que o faz sentir-se como uma vítima que se sabe também responsável por sua subjugação.
  4. renúncia superior, típica de quem se nega a trabalhar em função de uma vida mais livre e contemplativa.
  5. tirania alienante, em função da qual sua rotina deixa de incorporar os hábitos cultivados pelas pessoas comuns.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Compulsão inefável indica uma força interna que o autor não consegue explicar em palavras.
O termo inefável remete ao que é impossível de descrever, mas não exclui o prazer; sugere algo imposto por dentro e, ao mesmo tempo, vivido intensamente.

O texto registra afirmações como "Tenho que escrever" e "não se trata de necessidade", além de "quando entro em férias, escrevo mais".
Esses trechos mostram a tensão entre obrigação percebida e exercício voluntário e frequente da escrita.

A expressão "vítima e cúmplice" revela essa ambivalência: ele se sente subjugado pela escrita e, simultaneamente, responsável por se entregar a ela.
Assim, trata-se de uma imposição prazerosa, uma subjugação aceita e até buscada.

Portanto, a alternativa C traduz com precisão o sentido do fragmento: uma imposição interna que causa sensação de vítima, mas decorre de consentimento e prazer.

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