Questão FC655408
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. Solo para flauta Escrever. Tenho que escrever. Neste momento é necessário, mas não se trata de necessidade. Domingo, por exempl
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
Solo para flauta
Escrever. Tenho que escrever. Neste momento é necessário, mas não se trata de necessidade. Domingo, por exemplo, não tenho obrigação de escrever, e entretanto escrevo. Quando entro em férias, escrevo mais que quando em atividade remunerada. Donde viria isso, essa compulsão inefável e cruel de que sou vítima e cúmplice desde garotinho? Não me consta que um operário sinta prazer em trabalhar durante a telenovela das oito. No entanto, eu trabalho vendo novela de TV. Tenho sempre um caderninho de apontamentos e uma esferográfica. Não desligo de minha atividade nem mesmo durante os comerciais.
Neste momento, luto contra uma sonolência que me visita em horas mais ou menos previsíveis. Tem ela afinidade com o desfalecimento. Estando em convalescença, minado o meu organismo pela ingestão de produtos químicos, o sono se aproxima com promessas de recuperação, mas eu recuso a sua meiga imposição. Não me agrada dormir no sentido em que as pessoas geralmente dormem, obedientes à tirania do relógio e à ordem das atividades sociais produtivas. Ser noturno, encontro então uma doçura que poucos reconhecem e aproveitam, na penumbra, na surdina, no radioso silêncio. Escrevo.
Haverá ainda alguma compreensão para uma literatura de sutilezas, de constituição tênue, quase tão somente cores e sons macios, sigilosos? Ah, quanta saudade tenho da aurora da minha vida...Era feliz o mundo exterior, o grato espanto de saber que Deus povoara o mundo com felicidades ingênuas...
Escrevo, escrevo. Continuarei.
(Adaptado de: OLIVEIRA, José Carlos. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 307-308)
O cronista conclui que, para escrever, idealiza e prestigia certos atributos de um texto, tais como
- a concisão e a secura da linguagem mais objetiva possível.
- a expressão fiel dos acontecimentos mundanos.
- o caráter reflexivo e solene da retórica bem apurada.
- a delicadeza e a musicalidade discreta das palavras.
- o registro fotográfico das experiências passadas.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Delicadeza e musicalidade discreta estão no cerne da preferência do cronista, como mostram expressões do texto que exaltam leveza e sonoridade: "literatura de sutilezas", "cores e sons macios" e "sigilosos". Essas imagens indicam um cuidado com o timbre das palavras e com efeitos sutis sobre o leitor.
O autor valoriza o ritmo íntimo e a harmonia sonora da escrita, reforçado por expressões como "radioso silêncio" e pela descrição de um trabalho noturno onde a escrita acontece em clima de penumbra. Isso evidencia uma busca por texturas e música verbal mais do que por força ou objetividade brusca.
Portanto, a alternativa traduz fielmente o tipo de escrita que o cronista idealiza: linguagem sensível, sonora e de finas nuances.
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