Questão FC655409
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. Instintos e (des)civilização Quão robusta é a ordem civilizatória ocidental? A julgar pelo século XX e mesmo sem levar em conta
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2022
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
Instintos e (des)civilização
Quão robusta é a ordem civilizatória ocidental? A julgar pelo século XX e mesmo sem levar em conta as duas guerras mundiais, talvez menos do que pareça. O padrão é conhecido: situações de conflito armado, morticínios, cataclismos naturais, migrações dramáticas, colapsos econômicos agudos. São fatos que revelam a fragilidade da fina superfície de civilidade e decoro sobre a qual assenta a nossa civilização.
Sob o impacto do abalo provocado por desastres como esses, o comportamento das pessoas sofre uma drástica mutação: enquanto alguns, em geral poucos, agem de forma solidária e até mesmo heroica, a maior parte da população atingida regride a um estado de violência e selvageria no qual a lógica do “salve-se quem puder” deságua na rápida escalada dos furtos, assaltos, saques, crimes e vandalismo. Quase que num piscar de olhos, o cordato cidadão civilizado se transforma em besta feroz, capaz das piores atrocidades.
Como entender esse perturbador fenômeno? A interpretação usual propõe um modelo conhecido: o ser humano no fundo é um animal selvagem e terrível. Remova os sustentáculos elementares da ordem civilizada; dispa a camisa de força social; suspenda, ainda que brevemente, a vigilância e a ameaça de punição aos infratores do código legal, e, em pouco tempo, retrocedemos ao “estado natural” e à “guerra de todos contra todos”. Os episódios de regressão à barbárie seriam, em suma, o psiquismo arcaico do animal humano posto a nu. É essa uma tese tão aceita quanto controversa: o que vem à tona não é mais o homem natural e primitivo; trata-se agora do “descivilizado”, livre das amarras civilizatórias e preso a um novo psiquismo violento. A “natureza” que já fora expelida traz agora, em seu retorno, as marcas e as feridas de sua violenta expulsão.
(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 125-126)
Defende-se no texto a tese de que a ordem civilizatória ocidental, em nosso tempo,
- vem demonstrando sua resiliência ao confrontar-se com eventos intensamente dramáticos, como os que passaram a ocorrer ao longo século XX.
- passa a desviar-se de seu projeto idealista a partir do momento em que os homens começam a recorrer aos valores das antigas culturas clássicas.
- está reincidindo na mesma barbárie que caracterizava nossos ancestrais, como se jamais houvéssemos conhecido algum projeto mais afirmativo.
- vem recaindo em estágios de barbárie, que parecem ressurgir com mais força depois da suposta exclusão dos nossos instintos primitivos.
- deixa-se ameaçar pela emergência de instintos brutais desconhecidos, que a duras penas as nações mais desenvolvidas buscam enfrentar.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa D está correta porque resume com fidelidade a ideia central do texto: a ordem civilizatória ocidental não se mostra invulnerável; em situações extremas, grande parte das pessoas regrediria a comportamentos violentos, indicando um retorno à barbárie.
O autor afirma que, sob abalos como guerras, catástrofes e colapsos, o comportamento coletivo “sofre uma drástica mutação” e a maioria “regride a um estado de violência e selvageria” que gera furtos, saques e crimes. Isso justifica a noção de que a civilização vem recaindo em estágios de barbárie.
Além disso, o texto aponta que essa regressão decorre do reaparecimento de uma “natureza” previamente expelida, o que explica a expressão “suposta exclusão dos nossos instintos primitivos”: esses instintos voltam com força quando os freios sociais são removidos.
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