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Questão FC655410

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. Instintos e (des)civilização Quão robusta é a ordem civilizatória ocidental? A julgar pelo século XX e mesmo sem levar em conta

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Instintos e (des)civilização

 

Quão robusta é a ordem civilizatória ocidental? A julgar pelo século XX e mesmo sem levar em conta as duas guerras mundiais, talvez menos do que pareça. O padrão é conhecido: situações de conflito armado, morticínios, cataclismos naturais, migrações dramáticas, colapsos econômicos agudos. São fatos que revelam a fragilidade da fina superfície de civilidade e decoro sobre a qual assenta a nossa civilização.

 

Sob o impacto do abalo provocado por desastres como esses, o comportamento das pessoas sofre uma drástica mutação: enquanto alguns, em geral poucos, agem de forma solidária e até mesmo heroica, a maior parte da população atingida regride a um estado de violência e selvageria no qual a lógica do “salve-se quem puder” deságua na rápida escalada dos furtos, assaltos, saques, crimes e vandalismo. Quase que num piscar de olhos, o cordato cidadão civilizado se transforma em besta feroz, capaz das piores atrocidades.

 

Como entender esse perturbador fenômeno? A interpretação usual propõe um modelo conhecido: o ser humano no fundo é um animal selvagem e terrível. Remova os sustentáculos elementares da ordem civilizada; dispa a camisa de força social; suspenda, ainda que brevemente, a vigilância e a ameaça de punição aos infratores do código legal, e, em pouco tempo, retrocedemos ao “estado natural” e à “guerra de todos contra todos”. Os episódios de regressão à barbárie seriam, em suma, o psiquismo arcaico do animal humano posto a nu. É essa uma tese tão aceita quanto controversa: o que vem à tona não é mais o homem natural e primitivo; trata-se agora do “descivilizado”, livre das amarras civilizatórias e preso a um novo psiquismo violento. A “natureza” que já fora expelida traz agora, em seu retorno, as marcas e as feridas de sua violenta expulsão.

 

(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 125-126)

 

Expressões como “salve-se quem puder” (2º parágrafo) e “guerra de todos contra todos” (3º parágrafo) estão sendo utilizadas para qualificar

  1. as novas bases em que se apoia a civilidade possível das sociedades contemporâneas.
  2. a corrosão progressiva das normas civilizadas de conduta e dos próprios estatutos jurídicos.
  3. a relativização de valores ocidentais que julgávamos justos e que pedem urgente revisão.
  4. o homem moderno “descivilizado”, ou seja, em vias de elaborar novas projeções éticas.
  5. o comportamento generalizado de povos primitivos que subsistem na modernidade.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Corrosão progressiva refere-se aqui ao enfraquecimento das regras sociais e legais que sustentam a convivência. As expressões "salve-se quem puder" e "guerra de todos contra todos" ilustram, respectivamente, a priorização da sobrevivência individual e a generalização do conflito quando esses mecanismos falham.

O texto mostra que, ao se removerem os sustentáculos da ordem — vigilância, punição, normas — a superfície de civilidade se rompe e surge comportamento violento e desregulado. Essas imagens convergem para a ideia de degradação das normas e dos próprios estatutos jurídicos que regulam a vida em sociedade.

Portanto, a alternativa correta sintetiza com precisão a intenção do autor: as expressões qualificam a perda progressiva da ordem normativa e legal.

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