Questão FC655423
O bafo largo do animal revelava-lhe o porte, mas a densidade do escuro escondia tudo. Estavam como dois ruídos inimigos em lugar nenhum. Saberiam nada mais do que o ruído e o odor
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2021
O bafo largo do animal revelava-lhe o porte, mas a densidade do escuro escondia tudo. Estavam como dois ruídos inimigos em lugar nenhum. Saberiam nada mais do que o ruído e o odor de cada um. Mediam a mútua coragem e o mútuo medo sem se poderem ver. O artesão pensou. Se o predador estivesse capaz já o teria mordido avidamente. Por isso, talvez se salvasse se lhe evitasse a boca pousada para um ou outro lado. Fez contas. A respiração aflita do companheiro vinha da sua esquerda, precisava claramente de conservar-se à direita, longe de dentes, mais seguro. Julgou que à luz do dia veria o inimigo e alguém o acudiria. Se lhe descessem uma lâmina haveria de a enfiar nas tripas nervosas do bicho e o saberia morto. Poderia descansar na sua provação, que era já coisa bastante para o arreliado do espírito que costumava ter.
A noite toda se foi medindo no exíguo espaço e prestou atenção àquela aflição contínua. Mas, com o dia, seguiu sem ver. A roda de céu que declinava ao chão transbordava, pelo que quase nada baixava. No fundo tão fundo eram só cegos. Foi quando Itaro distinguiu lucidamente o que lhe ocorria. Estar no fundo do poço era menos estar no fundo do poço e mais estar cego, igual a Matsu, a sua irmã. Estava, por fim, capturado pelo mundo da irmã. A menina habitava o radical puro da natureza.
(MÃE, Valter Hugo. A lenda do poço in Homens imprudentemente poéticos. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016, p. 124-125)
No texto, o narrador recorre a um enunciado paradoxal no seguinte trecho:
- a densidade do escuro escondia tudo (1º parágrafo)
- Saberiam nada mais do que o ruído (1º parágrafo)
- Poderia descansar na sua provação (1º parágrafo)
- A noite toda se foi medindo no exíguo espaço (2º parágrafo)
- Foi quando Itaro distinguiu lucidamente (2º parágrafo)
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
"Poderia descansar" e "provação" são termos semanticamente opostos: descansar remete a alívio, repouso; provação indica sofrimento, prova difícil. A justaposição desses termos cria uma tensão interna que não se resolve de modo lógico, configurando um enunciado de caráter paradoxal.
Esse paradoxo funciona como recurso estilístico: revela uma atitude ambivalente do personagem, que aceita o sofrimento como único lugar possível de alívio. Ao transformar a dor em experiência que pode propiciar descanso, o enunciado expõe resignação e ironia existencial.
Assim, a expressão reúne elementos contraditórios numa mesma oração, produzindo efeito de estranhamento e aprofundando a caracterização psicológica, razão pela qual é corretamente classificada como enunciado paradoxal.
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