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Questão FC655424

O bafo largo do animal revelava-lhe o porte, mas a densidade do escuro escondia tudo. Estavam como dois ruídos inimigos em lugar nenhum. Saberiam nada mais do que o ruído e o odor

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2021

O bafo largo do animal revelava-lhe o porte, mas a densidade do escuro escondia tudo. Estavam como dois ruídos inimigos em lugar nenhum. Saberiam nada mais do que o ruído e o odor de cada um. Mediam a mútua coragem e o mútuo medo sem se poderem ver. O artesão pensou. Se o predador estivesse capaz já o teria mordido avidamente. Por isso, talvez se salvasse se lhe evitasse a boca pousada para um ou outro lado. Fez contas. A respiração aflita do companheiro vinha da sua esquerda, precisava claramente de conservar-se à direita, longe de dentes, mais seguro. Julgou que à luz do dia veria o inimigo e alguém o acudiria. Se lhe descessem uma lâmina haveria de a enfiar nas tripas nervosas do bicho e o saberia morto. Poderia descansar na sua provação, que era já coisa bastante para o arreliado do espírito que costumava ter.

 

A noite toda se foi medindo no exíguo espaço e prestou atenção àquela aflição contínua. Mas, com o dia, seguiu sem ver. A roda de céu que declinava ao chão transbordava, pelo que quase nada baixava. No fundo tão fundo eram só cegos. Foi quando Itaro distinguiu lucidamente o que lhe ocorria. Estar no fundo do poço era menos estar no fundo do poço e mais estar cego, igual a Matsu, a sua irmã. Estava, por fim, capturado pelo mundo da irmã. A menina habitava o radical puro da natureza.

(MÃE, Valter Hugo. A lenda do poço in Homens imprudentemente poéticos. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016, p. 124-125)

 

Considere as seguintes afirmações sobre o texto:

 

I. Há uma conexão entre palavras que expressam a escuridão do fundo do poço e a progressão da evidência que vai se realizando no interior da personagem.

 

II. Do primeiro para o segundo parágrafo, marca-se a passagem da noite para o dia, ao mesmo tempo que se desenha a borda do poço acima.

 

III. A personagem Matsu também está dentro do poço junto a seu irmão Itaro, que, em um delírio, a vê como um animal feroz.

 

Está correto o que se afirma em

  1. II, apenas.
  2. I e III, apenas.
  3. I, II e III.
  4. II e III, apenas.
  5. I e II, apenas.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

I. O texto articula imagens da escuridão do poço com o avanço interior de Itaro: expressões como “densidade do escuro escondia tudo” e “cego” funcionam tanto como descrição física quanto como metáfora da ignorância e do medo. À medida que a luz e a percepção mudam, cresce a clareza psicológica; a progressão de sensações (ruído, odor, medo calculado) culmina na percepção lúcida de sua condição e na identificação do vínculo com a irmã.


II. A transição entre parágrafos marca claramente a passagem do tempo e a chegada do dia: “A noite toda…” seguida de “Mas, com o dia…” indica o amanhecer. Simultaneamente, a linguagem aproxima a borda do poço: a imagem da “roda de céu que declinava ao chão” e o comentário sobre o pouco que descia sugerem que a superfície e a borda passam a ser percebidas, mesmo que a visibilidade permaneça limitada.

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