Questão FC655434
Em que adiantada estação o tempo lhe vinha comer à mão?
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2021
Considere o poema de Mia Couto para responder à questão.
Mudança de idade
Para explicar os excessos do meu irmão a minha mãe dizia: está na mudança de idade.
Na altura, eu não tinha idade nenhuma e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas no rosto do meu irmão, eu morria de inveja enquanto me perguntava: em que idade a idade muda?
Que vida, escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa, eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques mas vinham de longe, de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos a mãe vinha esticar os lençóis que era um modo de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia. E eu não sabia se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia, é uma doença envergonhada. Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras soavam mais longe que os tambores noturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade. É a vida para além do sonho.
Idades mudaram-me, calaram-se tambores, na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei: apenas o amor nos rouba do tempo.
E ainda hoje estico os lençóis antes de adormecer.
(COUTO, Mia. Poemas escolhidos, pp. 166-167. Companhia das Letras, 2016, edição digital)
No poema, o eu lírico rememora um tempo em que
- imaginava que ele e o irmão poderiam se tornar companheiros de vida.
- acreditava, ao ser consolado pela mãe antes de dormir, que se tornara uma criança triste.
- considerava que a mãe dedicava-se com mais afinco e afeto ao irmão do que a ele.
- desejava passar, ele mesmo, pela transformação que identificava no irmão.
- almejava sentir o mesmo conforto que percebia na relação do irmão com a mãe.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa D é correta porque o poema registra o desejo do eu lírico de experimentar a mesma mudança que via no irmão: a passagem para outra fase da vida.
O sentimento aparece explicitamente quando ele diz “Despontavam borbulhas no rosto do meu irmão, eu morria de inveja” e se pergunta “em que idade a idade muda?”. Essas falas mostram inveja e curiosidade sobre a transformação que o irmão vivia.
Além disso, a invocação à lua — “eu à lua pedia uma outra idade” — expressa o desejo ativo de ser levado por essa mudança. O poema trata a mudança de idade como uma transformação desejada, não apenas uma observação alheia.
Portanto, o eu lírico rememora um tempo em que desejava passar ele mesmo pela transformação que identificava no irmão.
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