Questão FC655454
Acho que a verdadeira força motriz do desenvolvimento humano, a razão da superioridade e do sucesso do Homem, foi a preguiça. A técnica é fruto da preguiça. O que são o estilingue,
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2020
Atenção: Para responder a questão a seguir, baseie-se no texto abaixo.
[O motor da preguiça]
Acho que a verdadeira força motriz do desenvolvimento humano, a razão da superioridade e do sucesso do Homem, foi a preguiça. A técnica é fruto da preguiça. O que são o estilingue, a flecha e a lança senão maneiras de não precisar ir lá e esgoelar a caça ou um semelhante com as mãos, arriscando-se a levar a pior e perder a viagem? O que estaria pensando o inventor da roda senão no eventual desenvolvimento da charrete, que, atrelada a um animal menos preguiçoso do que ele, o levaria a toda parte sem que ele precisasse correr ou caminhar?
Toda a história das telecomunicações, desde os tambores tribais e seus códigos primitivos até os sinais da TV e a internet, se deve ao desejo humano de enviar a mensagem em vez de ir entregá-la pessoalmente. A fome de riqueza e poder do Homem não passa da vontade de poder mandar os outros fazerem o que ele tem preguiça de fazer, seja de trazer os seus chinelos ou construir suas pirâmides.
A química moderna é filha da alquimia, que era a tentativa de ter o ouro sem ter que procurá-lo, ou trabalhar para merecê-lo. A física e a filosofia são produtos da contemplação, que é um subproduto da indolência e uma alternativa para a sesta, A grande arte também se deve à preguiça. Não por acaso, o que é considerada a maior realização da melhor época da arte ocidental, o teto da Capela Sistina, foi feita pelo Michelangelo deitado. Marcel Proust escreveu Em busca do tempo perdido deitado. Vá lá, recostado. As duas maiores invenções contemporâneas, depois do antibiótico e do microchip, que são a escada rolante e o manobrista, devem sua existência à preguiça. E nem vamos falar no controle remoto.
(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 54-55)
No segundo parágrafo, a fome de riqueza e poder do Homem é dada como justificativa para a
- criação de obras de arte de valor inestimável, como as produzidas pela genialidade de Michelangelo e de Proust.
- contemplação filosófica, que leva os homens a erguerem seu pensamento para as mais altas ideias.
- substituição do talento pessoal pelo esforço de chegar a alguma invenção de grande repercussão política.
- obtenção de meios que lhe permitam dominar seus semelhantes, obrigando-os às mais variadas tarefas.
- improvisação permanente de técnicas ineficazes, pelas quais o poderio almejado se transforma em duro fracasso.
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Gabarito
D
Comentário do professor
No segundo parágrafo, o autor afirma que a fome de riqueza e poder equivale à vontade de mandar nos outros para que façam o que ele não quer fazer; ele mesmo exemplifica: "seja de trazer os seus chinelos ou construir suas pirâmides".
Essa descrição mostra que a busca por riqueza e poder visa a obtenção de meios — recursos, tecnologia e autoridade — que permitem dominar os semelhantes e obrigá‑los a executar tarefas variadas, do trivial ao grandioso.
Portanto, a alternativa D sintetiza com precisão a ideia do texto: a tal fome serve como justificativa para adquirir instrumentos capazes de subordinar e mandar nos outros.
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