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Questão FC655464

Graciliano Ramos: Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca [...] Falo somente do que falo: do seco e de suas

Tipologia e Gênero Textual

FCC · 2022

Graciliano Ramos:

 

Falo somente com o que falo:

com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol

que as limpa do que não é faca

 

[...]

 

Falo somente do que falo:

do seco e de suas paisagens,

Nordestes, debaixo de um sol

ali do mais quente vinagre

 

[...]

 

Falo somente por quem falo:

por quem existe nesses climas

condicionados pelo sol, pelo gavião e outras rapinas

 

[...]

 

Falo somente para quem falo:

quem padece sono de morto

e precisa um despertador

acre, como o sol sobre o olho

 

O gênero da crônica frequentado tão criativamente por Rubem Braga é um exemplo alto de

  1. discurso contemporâneo comunicativo, aberto a formas variadas de interação com os leitores, prenunciando assim o caráter democrático da nova arte de tendência inclusiva.
  2. estilo sublime, disposto a exprimir com a devida solenidade as oscilações angustiosas do espírito moderno, marcado pelo artificialismo dos mais típicos hábitos burgueses.
  3. modalidade ficcional disposta a se deixar conduzir sobretudo pela paródia e pela ironia que acentuam seu caráter de irredutível crítica dos valores conservadores.
  4. texto jornalístico capaz de ir além da pura informação, já que esse autor só se vale dela para ultrapassá-la e atingir a qualidade especulativa dos ensaios sociológicos.
  5. prosa moderna carregada ao mesmo tempo de sentimento poético, impulso reflexivo, melancolia e lúcida observação crítica de fatos e personagens da vida real.
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Comentário do professor

Prosa moderna significa aqui a escrita em prosa que privilegia a concisão, o ritmo e a atenção ao cotidiano. A crônica de Rubem Braga usa essa prosa para transformar pequenas cenas em reflexão intensa.

O sentimento poético aparece no tratamento imagético e sonoro da linguagem: imagens, metáforas e musicalidade que conferem densidade estética a relatos simples.

O impulso reflexivo recolhe impressões pessoais e as amplia em pensamentos universais, convidando o leitor a pensar sobre sentido e memória.

A melancolia é tom frequente, manifestando-se como nostalgia e reconhecimento das perdas, sem romantização.

Finalmente, a observação crítica permanece lúcida e atenta aos personagens e fatos da vida real, combinando empatia e julgamento fino.

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