Questão FC655615
Considere o texto abaixo para responder a questão. Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
FCC · 2026
Considere o texto abaixo para responder a questão.
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque — a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras — e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
(LISPECTOR, Clarice. “Por não estarem distraídos”, Para não esquecer, Rocco, 2020)
Considere as seguintes afirmações sobre o texto.
I. Os segmentos quiseram ter o que já tinham e quiseram ser, eles que eram (2º parágrafo) são paradoxos que ilustram o descompasso de duas pessoas que estão em momentos distintos da relação.
II. O verbo “errar” (2º parágrafo) é usado em seus dois sentidos, de equivocar-se e de perambular — correlatos, respectivamente, de erro e errância.
III. O uso do “se” em como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta (1º parágrafo), presta-se a indeterminar o sujeito, de modo a expressar uma ideia geral, na qual se enquadra o comportamento do casal.
Está correto o que consta APENAS de
- I e III.
- I.
- I e II.
- III.
- II e III.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
II: o verbo errar aparece com dupla carga semântica. Há o sentido de equivocar‑se nas trocas e falas — expresso por "cerimonial das palavras desacertadas" — e o sentido de perambular, sugerido pela imagem das ruas e da poeira. Assim, erro remete tanto ao deslize comunicativo quanto à errância física, fazendo convergir o conflito íntimo e o deslocamento espacial.
III: o uso do se em "como quando se sente..." e "se vê..." é impessoal/indeterminado. Não refere um sujeito específico, antes generaliza a experiência. Essa construção coloca o episódio do casal numa observação universal, incluindo o comportamento deles sem nomear agentes, o que reforça o caráter lírico e coletivo da cena.
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