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Questão FC655624

Atenção: Para responder à questão, leia o texto de John Gledson. Na década de 1880, Machado de Assis publicou cerca de oitenta contos, numa espantosa explosão de criatividade, que

Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)

FCC · 2022

Atenção: Para responder à questão, leia o texto de John Gledson.

Na década de 1880, Machado de Assis publicou cerca de oitenta contos, numa espantosa explosão de criatividade, que também rendeu seu primeiro grande romance, Memórias póstumas de Brás Cubas (1880).

 

Como isso aconteceu − por que aconteceu, e por que nesse momento? Nada é mais difícil de explicar do que a explosão de um gênio criador − e não devemos duvidar que é disso que se trata. Contos podem parecer fáceis, escritos algo apressadamente como uma espécie de subproduto de um trabalho mais sério ou até como sintomas de uma incapacidade passageira de empreender “obras de maior tomo” (palavras de Dom Casmurro), mas nada está mais longe da verdade. Contos não são romances imperfeitos − existem com seus direitos próprios, e quando Machado começou a escrever os seus melhores, o gênero estava conquistando uma nova dignidade.

 

O traço mais importante de seus contos é a ironia, com frequência fixada por um estilo que muitas vezes emprega certo registro de linguagem a fim de estabelecer, desde a primeira palavra, que nada ali é para ser levado inteiramente a sério, que aquilo não é a fala direta do autor: “A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de Dona Benedita”. Machado podia parodiar qualquer tipo de linguagem, da Bíblia à dos jornaisI (essa, de fato, era a que satirizava com mais frequência). No começo dos anos 1880, Machado não só estabelecera seu direito a falar do universo, mas também principiara a fazer o retrato da sociedade brasileira sob uma luz inteiramente nova. Os romances bem-educados dos anos 1870, que elevavam a vida social, deram lugar à sátira selvagem de Memórias póstumas de Brás Cubas, que mostrava realidades − adultério, prostituição, escravatura, o tratamento dado aos agregados − com uma nitidez e uma cólera inteiramente impossíveis alguns anos antes.

 

Uma coisa é certa: a expansão do material possível de Machado e o distanciamento irônico que ele adota são inseparáveis. Digamos assim: se ele não tivesse encontrado modos dos mais variados (irônicos, sarcásticos, mas sempre semiocultos) de se expressar a respeito de coisas sobre as quais não devia falar, ou às quais só podia se referir de soslaioII, suas histórias jamais teriam existido; podemos sentir sua satisfação quando se aproxima de outra questão espinhosa e acaba encontrando novas maneiras de falar sobre coisas demasiado embaraçosasIII para mencionar diretamente. Na minha opinião, isso ajuda a explicar o êxito de seus contos − Machado caminhava no fio da navalha.

 

(Adaptado de: GLEDSON, John. Trad. Fernando Py.

In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, edição digital)

Leia as afirmações abaixo.

 

I. No trecho Machado podia parodiar qualquer tipo de linguagem, da Bíblia à dos jornais, (3o parágrafo) o emprego da crase se deve à supressão da palavra “linguagem”.

 

II. O emprego da crase é facultativo em às quais só podia se referir de soslaio.

 

III. No trecho acaba encontrando novas maneiras de falar sobre coisas demasiado embaraçosas, a palavra sublinhada foi empregada como adjetivo.

 

Está correto o que se afirma APENAS em

  1. I e II.
  2. I.
  3. II e III.
  4. I e III.
  5. II.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Crase indica a fusão da preposição a com o artigo ou pronome feminino a(s), representada por à / às.

Na expressão Machado podia parodiar qualquer tipo de linguagem, da Bíblia à dos jornais, há supressão do substantivo linguagem. Se reconstituirmos, teremos da Bíblia à linguagem dos jornais.

Nesse contexto aparece a sequência de... a (equivalente a "desde... até"), portanto existe a preposição a antes de um substantivo feminino que admite o artigo a. A junção da preposição com o artigo exige o acento grave: à.

Por isso a afirmação I está correta: o uso da crase decorre da supressão de linguagem e da contração da preposição com o artigo.

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