Questão FC83611
O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de
Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
CEBRASPE (CESPE) · 2024
O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de modo significativo, mais duro em relação àqueles que “chafurdam na ignorância de porcos” que em relação aos mentirosos. Terá isso acontecido porque era ainda desconhecida a mentira organizada, que domina a coisa pública, à diferença do mentiroso privado que tenta a sua sorte por sua própria conta?
A mentira tradicional implicava apenas particulares e nunca visava enganar literalmente toda a gente; dirigia-se ao inimigo e só a ele queria enganar. Como os fatos se produzem sempre num contexto, uma mentira particular — quer dizer, uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto — faz, por assim dizer, um buraco no tecido dos fatos. Como todo o historiador sabe, pode-se detectar uma mentira observando-se incongruências, buracos, ou junturas dos espaços consertados. Enquanto a textura no seu todo for conservada intacta, a mentira mostrar-se-á imediatamente de modo espontâneo.
Se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um completo rearranjo de toda a textura factual — o fabrico de uma outra realidade, por assim dizer, na qual se encaixam sem costuras, fendas nem fissuras, exatamente como os fatos encaixavam no seu contexto original —, o que é que impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem um substituto adequado da realidade e da factualidade?
Hannah Arendt. Verdade e política.
Internet: <edisciplinas.usp.br> (com adaptações).
No que concerne aos aspectos linguísticos do texto CB1A2-II, julgue o item subsequente.Seriam mantidos os sentidos originais do texto e sua correção gramatical caso o trecho “e não fatos novos” (terceiro parágrafo) fosse isolado por vírgulas.
- Errado
- Certo
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A afirmação foi julgada ERRADO porque a inserção das vírgulas altera o sentido e prejudica a pontuação.
No original, o segmento “e não fatos” funciona como parte de uma enumeração, ou seja, a conjunção é uma conjunção aditiva que soma elementos: “estas histórias, imagens e não fatos novos”, em que “não fatos” refere‑se a falsificações ou mentiras.
Ao isolar com vírgulas, a leitura passa a entender “e não” como uma locução adversativa, conferindo sentido de exclusão, e transforma o trecho em um inciso explicativo. Além disso, essa pontuação cria uma vírgula antes de “de se tornarem”, o que estaria a separar sujeito e predicado, procedimento incorreto em português.
Portanto, a mudança proposta altera o significado e compromete a correção gramatical.
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