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Questão FC83882

Texto CB2A1 Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante, me le

Ortografia

CEBRASPE (CESPE) · 2024

Texto CB2A1
Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante, me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um locaute, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que, obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido, conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E, enquanto tomo café, vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente.
Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento, ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

— Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo? “Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém...

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina — e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque, no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou um artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”

E assobiava pelas escadas.
 

Rubem Braga. O padeiro (com adaptações).

Julgue o item subsequente, em relação a estruturas linguísticas do texto CB2A1.

Tanto a forma “assobiava”, empregada no último parágrafo do texto, quanto a forma assoviava são admitidas pela ortografia oficial em vigor, tendo ambas o mesmo significado.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A afirmação é CERTA porque as variantes gráficas do verbo estão registradas na norma culta. O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras admite tanto assobiar quanto assoviar, portanto as formas conjugadas assobiava e assoviava são graficamente corretas.

Linguisticamente, trata‑se de uma variação vocálica tradicional, sem diferença de sentido, ambas derivadas do mesmo radical e obedecendo à mesma conjugação. Ou seja, "ele assobiava" e "ele assoviava" transmitem a mesma ação, o ato de produzir som pela boca com os lábios.

No contexto do texto de Rubem Braga, optar por assobiava é uma escolha estilística do autor, não uma exigência normativa, portanto o item foi julgado corretamente como certo.

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