Questão FC84871
Quis protestar contra a lei nova. Pareceu-me opressiva da liberdade eleitoral. Pois eu escolho um nome, para presidente da República, suponhamos; ou senador, ou deputado que seja;
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
CEBRASPE (CESPE) · 2024
Nove e três quartos. Trinta e cinco eleitores. Alguns almoçados. Os almoçados interpretavam o regulamento eleitoral diferentemente dos que o não eram. Daí algumas conversações particulares à meia voz, dizendo uns que a chamada devia começar às dez horas em ponto, outros que antes.
— Meus senhores, vai começar a chamada — disse o presidente da mesa.
Eram dez horas menos um minuto. Havia quarenta e sete eleitores. Abriram-se as urnas, que foram mostradas aos eleitores, a fim de que eles vissem que não havia nada dentro. Os cinco mesários já estavam sentados, com os livros, papéis e penas. O presidente fez esta advertência:
— Previno aos senhores eleitores que as cédulas que contiverem nomes riscados e substituídos não serão apuradas; é disposição da lei nova.
Quis protestar contra a lei nova. Pareceu-me opressiva da liberdade eleitoral. Pois eu escolho um nome, para presidente da República, suponhamos; ou senador, ou deputado que seja; em caminho, ao descer do bonde, acho que o nome não é tão bom como o outro, e não posso entrar numa loja, abrir a cédula e trocar o voto?
— Antônio José Pereira — chamava o mesário.
— Está na Europa — dizia um eleitor, explicando o silêncio.
— Pôncio Pilatos!
— Morreu, senhor; está no Credo.
Tinha começado a chamada e prosseguia lentamente para não dar lugar a reclamações. Nove décimos dos eleitores não respondiam por isto ou por aquilo.
— Padre Diogo Antônio Feijó! — prosseguia o mesário.
Pausa.
— Padre Diogo Antônio Feijó!
Pausa.
Eu gemia em silêncio. Consultei o relógio; faltavam sete minutos para as onze, e ainda não começara o meu quarteirão. Quis espairecer, levantei-me, fui até a porta, onde achei dois eleitores, fumando e falando de moças bonitas. Conhecia-os; eram do meu quarteirão.
Enfim, começou o meu quarteirão; respirei, mas respirei cedo, porque a lista era quase toda composta de abstencionistas, e os nomes dos ausentes ou mortos gastam mais tempo, pela necessidade de esperar que os donos apareçam. Chegou a minha vez. Votei e corri a almoçar. Relevem a vulgaridade da ação. Tartufo, neste ponto, emendaria o seu próprio autor:
“Ah! Pour être électeur, je n’en suis pas moins homme
[Ah! Um eleitor, mas nem por isso menos homem].”
Acerca das características do texto precedente, bem como das ideias nele veiculadas e de seus aspectos linguísticos, julgue o item seguinte.
No período “Relevem a vulgaridade da ação” (penúltimo parágrafo), o vocábulo “ação” remete ao ato de votar.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A afirmação é ERRADA porque, no contexto, o vocábulo “ação” retoma o ato imediatamente anterior, ou seja, almoçar. A frase que antecede diz “Votei e corri a almoçar”, e a nomeação por substantivo (“ação”) funciona como retomador anafórico da atitude mais próxima.
Do ponto de vista da coesão referencial e da coesão lexical, o referente natural de “ação” é o gesto inconveniente e “vulgar” de afastar‑se para almoçar logo após votar, leitura compatível com o julgamento moral irônico do narrador. Se o autor quisesse falar do ato de votar, teria usado termos mais precisos como “voto” ou “votação”, ou deixado indícios distintos no contexto.
Portanto, interpretar “ação” como o ato de votar é inadequado, razão pela qual o item foi corretamente julgado como ERRADO.
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