Questão FC84950
Texto V Quando os jornais anunciaram para o dia 1.º deste mês uma parede de açougueiros, a sensação que tive foi muito diversa da de todos os meus concidadãos. Vós ficastes aterrad
Partícula Se
CEBRASPE (CESPE) · 2024
Quando os jornais anunciaram para o dia 1.º deste mês uma parede de açougueiros, a sensação que tive foi muito diversa da de todos os meus concidadãos. Vós ficastes aterrados; eu agradeci o acontecimento ao céu. Boa ocasião para converter esta cidade ao vegetarismo.
Não sei se sabem que eu era carnívoro por educação e vegetariano por princípio. Criaram-me a carne, mais carne, ainda carne, sempre carne. Quando cheguei ao uso da razão e organizei o meu código de princípios, incluí nele o vegetarismo; mas era tarde para a execução. Fiquei carnívoro. Era a sorte humana; foi a minha. Não importa, o homem é carnívoro.
Deus, ao contrário, é vegetariano. Para mim, a questão do paraíso terrestre explica-se clara e singelamente pelo vegetarismo. Deus criou o homem para os vegetais, e os vegetais para o homem.
Enfim, chegou o dia 1.º de março; quase todos os açougues amanheceram sem carne. Chamei a família; com um discurso mostrei-lhe que a superioridade do vegetal sobre o animal era tão grande, que devíamos aproveitar a ocasião e adotar o são e fecundo princípio vegetariano. Ervas, ervas santas, puras, em que não há sangue; todas as variedades das plantas, que não berram nem esperneiam, quando lhes tiram a vida. Convenci a todos; não tivemos almoço nem jantar, mas dois banquetes. Nos outros dias a mesma cousa.
O vegetarismo é pai dos simples. Os vegetarianos não se batem; têm horror ao sangue. Eu não me dou por apóstolo único desta grande doutrina. Creio até que os temos aqui, anteriores a mim, e, — singular aproximação! — no próprio conselho municipal. Só assim explico a nota jovial que entra em alguns debates sobre assuntos graves e gravíssimos.
No que diz respeito aos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto V, julgue (C ou E) o seguinte item.
Em “Criaram-me a carne” (segundo período do segundo parágrafo), observa-se uma estratégia de indeterminação do sujeito que se explicitaria igualmente com a estrutura Criou-se a carne.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
O item foi julgado ERRADO porque as duas frases não são equivalentes sintaticamente.
Em "Criaram-me a carne" o verbo aparece na 3.ª pessoa do plural, indicando sujeito indeterminado, o pronome "me" funciona como objeto direto, e "a carne" não é sujeito, mas expressão que qualifica a maneira como fui criado, interpretada como adjunto (no sentido de "com carne").
Já em "Criou-se a carne" o "se" atua como pronome apassivador, formando voz passiva sintética, e "a carne" passa a ser sujeito paciente da oração, havendo concordância verbal com "a carne".
Portanto, a mudança altera a função sintática dos termos, logo a reescritura proposta não expressa a mesma construção.
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