Questão FC84952
Quis protestar contra a lei nova. Pareceu-me opressiva da liberdade eleitoral. Pois eu escolho um nome, para presidente da República, suponhamos; ou senador, ou deputado que seja;
Partícula Se
CEBRASPE (CESPE) · 2024
Nove e três quartos. Trinta e cinco eleitores. Alguns almoçados. Os almoçados interpretavam o regulamento eleitoral diferentemente dos que o não eram. Daí algumas conversações particulares à meia voz, dizendo uns que a chamada devia começar às dez horas em ponto, outros que antes.
— Meus senhores, vai começar a chamada — disse o presidente da mesa.
Eram dez horas menos um minuto. Havia quarenta e sete eleitores. Abriram-se as urnas, que foram mostradas aos eleitores, a fim de que eles vissem que não havia nada dentro. Os cinco mesários já estavam sentados, com os livros, papéis e penas. O presidente fez esta advertência:
— Previno aos senhores eleitores que as cédulas que contiverem nomes riscados e substituídos não serão apuradas; é disposição da lei nova.
Quis protestar contra a lei nova. Pareceu-me opressiva da liberdade eleitoral. Pois eu escolho um nome, para presidente da República, suponhamos; ou senador, ou deputado que seja; em caminho, ao descer do bonde, acho que o nome não é tão bom como o outro, e não posso entrar numa loja, abrir a cédula e trocar o voto?
— Antônio José Pereira — chamava o mesário.
— Está na Europa — dizia um eleitor, explicando o silêncio.
— Pôncio Pilatos!
— Morreu, senhor; está no Credo.
Tinha começado a chamada e prosseguia lentamente para não dar lugar a reclamações. Nove décimos dos eleitores não respondiam por isto ou por aquilo.
— Padre Diogo Antônio Feijó! — prosseguia o mesário.
Pausa.
— Padre Diogo Antônio Feijó!
Pausa.
Eu gemia em silêncio. Consultei o relógio; faltavam sete minutos para as onze, e ainda não começara o meu quarteirão. Quis espairecer, levantei-me, fui até a porta, onde achei dois eleitores, fumando e falando de moças bonitas. Conhecia-os; eram do meu quarteirão.
Enfim, começou o meu quarteirão; respirei, mas respirei cedo, porque a lista era quase toda composta de abstencionistas, e os nomes dos ausentes ou mortos gastam mais tempo, pela necessidade de esperar que os donos apareçam. Chegou a minha vez. Votei e corri a Tartufo, neste ponto, emendaria o seu próprio autor:
“Ah! Pour être électeur, je n’en suis pas moins homme
[Ah! Um eleitor, mas nem por isso menos homem].”
Em “Abriram-se as urnas” (quarto parágrafo), a partícula “se” exerce função de realce, podendo ser omitida sem alterar o sentido original do período e as relações sintáticas da oração.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Abriram-se as urnas contém o se como partícula apassivadora, isto é, marca a voz passiva sintética do verbo abrir, que é transitivo direto.
Nessa construção, as urnas é o sujeito paciente, o elemento que sofre a ação. A equivalência em voz passiva analítica é: As urnas foram abertas.
Se suprimirmos o se, formando Abriram as urnas, a oração muda de voz para a ativa, com sujeito oculto ("eles") que pratica a ação, e as urnas deixaria de ser sujeito para assumir função de objeto direto.
Portanto, a retirada do se altera o sentido e as relações sintáticas da frase, por isso a afirmação é incorreta. Nem todo se é expletivo; aqui ele cumpre função sintática essencial.
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