Questão FC84971
Texto CG1A1-I A apropriação colonial das terras indígenas muitas vezes se iniciava com alguma alegação genérica de que os povos forrageadores viviam em um estado de natureza — o qu
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2023
A apropriação colonial das terras indígenas muitas vezes se iniciava com alguma alegação genérica de que os povos forrageadores viviam em um estado de natureza — o que significava que eram considerados parte da terra, mas sem nenhum direito a sua propriedade. A base para o desalojamento, por sua vez, tinha como premissa a ideia de que os habitantes daquelas terras não trabalhavam. Esse argumento remonta ao Segundo tratado sobre o governo (1690), de John Locke, em que o autor defendia que os direitos de propriedade decorrem necessariamente do trabalho. Ao trabalhar a terra, o indivíduo “mistura seu trabalho” a ela; nesse sentido, a terra se torna, de certo modo, uma extensão do indivíduo. Os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, não faziam isso. Não eram, segundo os lockianos, “proprietários de terras que faziam melhorias”; apenas as usavam para atender às suas necessidades básicas com o mínimo de esforço.
James Tully, uma autoridade em direitos indígenas, aponta as implicações históricas desse pensamento: considera-se vaga a terra usada para a caça e a coleta e, “se os povos aborígenes tentam submeter os europeus a suas leis e costumes ou defender os territórios que durante milhares de anos tinham erroneamente pensado serem seus, então são eles que violam o direito natural e podem ser punidos ou ‘destruídos’ como animais selvagens”. Da mesma forma, o estereótipo do nativo indolente e despreocupado, levando uma vida sem ambições materiais, foi utilizado por milhares de conquistadores, administradores de latifúndios e funcionários coloniais europeus na Ásia, na África, na América Latina e na Oceania como pretexto para obrigar os povos nativos ao trabalho, com meios que iam desde a escravização pura e simples ao pagamento de taxas punitivas, corveias e servidão por dívida.
David Graeber e David Wengrow. O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Cia das Letras, 2022, p. 169-170 (com adaptações).
Com base nas ideias veiculadas no texto CG1A1-I, julgue o item a seguir.O texto informa que, antes da chegada dos europeus, as populações nativas dos territórios colonizados não trabalhavam.
- Errado
- Certo
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Comentário: O item está ERRADO porque o texto não afirma que as populações nativas não trabalhavam em termos absolutos. O que o texto menciona é a perspectiva dos colonizadores e dos discípulos de John Locke, que viam o modo de vida dos indígenas como um estado de natureza, desconsiderando suas práticas de uso da terra. Essa visão reduzia o conceito de trabalho a atividades que resultassem em melhorias visíveis na propriedade, indicando que, para os lockianos, os indígenas não eram considerados "proprietários" porque apenas utilizavam as terras para subsistência, e não as modificavam de forma significativa. Portanto, afirmar que os nativos não trabalhavam ignora suas formas de produção e subsistência. Isso representa uma interpretação tendenciosa, utilizada como justificativa para a appropriação colonial, e não um retrato real das práticas daqueles povos antes da chegada dos europeus.
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