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Questão FC85003

As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2023

Texto 20A2-II
Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua. Com ela enfrentarei os dissabores e as aventuras do meu cotidiano. Afinal, ela é a ponte que cruzo para alcançar os demais seres.

Minhas máscaras acomodam-se na prateleira, em meio às bolsas. Todas parecidas, elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes imperceptíveis aos olhos alheios. São raros aqueles que surpreendem a natureza da minha máscara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na iminência de velejar para um hemisfério longínquo, de onde, quem sabe, não regresso tão cedo.

Enquanto muitos confessam, em consonância, com triste adágio, que suas vidas são um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contrário, não sei viver sem as máscaras, que me protegem, são a salvaguarda da minha liberdade. E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, não importa. Afinal, a vida não permite previsões, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necessário revestir-se da máscara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.

Duvido que alguém prescinda do uso da máscara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil máscaras, capazes todas de impulsionar o espetáculo humano, de corresponder à natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperança qualquer coração.

As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferença. E são elas ainda que me perguntam qual das máscaras usar em determinada festa. Acaso a máscara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que é dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se à tirania das convenções, quer rasgar o véu da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no baú dos enigmas? Será a máscara que alardeia arrogância, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma única mensagem que justifique sua existência?

Olho-me ao espelho. Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha? Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios? É ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? É a máscara que pousa desajeitada no meu próprio rosto, onde há de ficar para sempre, até derreter um dia como se fora feita de cera?
 

Nélida Piñon. A máscara do meu rosto. In: O Estado de São Paulo, Suplemento Feminino, 29/9/1997.


Considerando aspectos de forma e de conteúdo do texto 20A2-II, julgue o item subsecutivo.

A construção sintática do título do texto — A máscara do meu rosto — permite a interpretação de uma equivalência semântica entre máscara e rosto.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: O título do texto, A máscara do meu rosto, sugere uma interpretação que vai além da simples presença física da máscara sobre o rosto. Essa construção sintática indica que a máscara e o rosto se entrelaçam de maneira íntima e significativa.
Quando dizemos "a máscara do meu rosto", estamos criando uma relação de posse e de identidade. Isso implica que a máscara não é apenas um objeto externo, mas sim algo que se faz parte de quem a narradora é. A expressão nos leva a entender que a máscara pode representar as várias facetas e sentimentos que a narradora apresenta ao mundo, funcionando como parte da sua própria identidade.
Esse aspecto se reforça no conteúdo do texto, onde a narradora reflete sobre como as máscaras que usa moldam sua interação com os outros e, de certa maneira, sua própria vida interna. Ela chega a questionar se, devido ao uso constante das máscaras, não teria elas se tornado uma parte inseparável do seu ser, mesmo quando está sozinha.
Portanto, a equivalência semântica entre máscara e rosto não apenas é permitida pela construção do título, mas também é fundamental para entender a profundidade da reflexão da narradora. Assim, podemos afirmar que o item está CERTO.

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