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Questão FC86408

O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2024

Texto CB1A2-II

O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de modo significativo, mais duro em relação àqueles que “chafurdam na ignorância de porcos” que em relação aos mentirosos. Terá isso acontecido porque era ainda desconhecida a mentira organizada, que domina a coisa pública, à diferença do mentiroso privado que tenta a sua sorte por sua própria conta?

A mentira tradicional implicava apenas particulares e nunca visava enganar literalmente toda a gente; dirigia-se ao inimigo e só a ele queria enganar. Como os fatos se produzem sempre num contexto, uma mentira particular — quer dizer, uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto — faz, por assim dizer, um buraco no tecido dos fatos. Como todo o historiador sabe, pode-se detectar uma mentira observando-se incongruências, buracos, ou junturas dos espaços consertados. Enquanto a textura no seu todo for conservada intacta, a mentira mostrar-se-á imediatamente de modo espontâneo.

Se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um completo rearranjo de toda a textura factual — o fabrico de uma outra realidade, por assim dizer, na qual se encaixam sem costuras, fendas nem fissuras, exatamente como os fatos encaixavam no seu contexto original —, o que é que impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem um substituto adequado da realidade e da factualidade?

Hannah Arendt. Verdade e política.
Internet: <edisciplinas.usp.br> (com adaptações).

No que se refere aos sentidos e às ideias do texto CB1A2-II, julgue o item a seguir.

Do desenvolvimento do texto depreende-se que a frase interrogativa que constitui o último parágrafo visa estimular a reflexão do leitor, e não fazer, de fato, uma pergunta sobre algo que a autora desconhece.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: A afirmação está correta porque a frase interrogativa do último parágrafo tem a função de provocar uma reflexão crítica no leitor sobre a natureza das mentiras políticas e suas implicações na realidade, em vez de buscar uma resposta objetiva. Hannah Arendt utiliza a pergunta retórica para instigar o pensamento e a análise sobre a construção da verdade na política moderna, sugerindo que a substituição da realidade por narrativas fabricadas não é apenas uma questão factual, mas sim um convite à reflexão sobre a percepção e a crença do público diante dessas manipulações.

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