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Questão FC86850

Texto CB1A2-II O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e volun

Tipologia e Gênero Textual

CEBRASPE (CESPE) · 2024

Texto CB1A2-II
O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de modo significativo, mais duro em relação àqueles que “chafurdam na ignorância de porcos” que em relação aos mentirosos. Terá isso acontecido porque era ainda desconhecida a mentira organizada, que domina a coisa pública, à diferença do mentiroso privado que tenta a sua sorte por sua própria conta?

A mentira tradicional implicava apenas particulares e nunca visava enganar literalmente toda a gente; dirigia-se ao inimigo e só a ele queria enganar. Como os fatos se produzem sempre num contexto, uma mentira particular — quer dizer, uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto — faz, por assim dizer, um buraco no tecido dos fatos. Como todo o historiador sabe, pode-se detectar uma mentira observando-se incongruências, buracos, ou junturas dos espaços consertados. Enquanto a textura no seu todo for conservada intacta, a mentira mostrar-se-á imediatamente de modo espontâneo.

Se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um completo rearranjo de toda a textura factual — o fabrico de uma outra realidade, por assim dizer, na qual se encaixam sem costuras, fendas nem fissuras, exatamente como os fatos encaixavam no seu contexto original —, o que é que impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem um substituto adequado da realidade e da factualidade?
 

Hannah Arendt. Verdade e política. Internet: <edisciplinas.usp.br>  (com adaptações).


No que se refere aos sentidos e às ideias do texto CB1A2-II, julgue o item a seguir.

O trecho “quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre ‘involuntário e voluntário’ — é, de modo significativo, mais duro em relação àqueles que ‘chafurdam na ignorância de porcos’ que em relação aos mentirosos” (primeiro período do texto) é utilizado pela autora como argumento de autoridade para defender sua tese, expressa no primeiro período do segundo parágrafo.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A afirmação foi julgada ERRADO porque o trecho sobre Platão não funciona como argumento de autoridade, que seria citar um especialista para validar a própria ideia. O autor não pede ao leitor que aceite Platão como prova incontestável.

Na passagem, a referência a Platão serve como introdução do tema e como problema inicial: ela descreve a distinção entre erro involuntário e mentira voluntária e instaura uma pergunta sobre se Platão teria reagido diferente diante da mentira organizada. Ou seja, ela contextualiza e problematiza, preparando a argumentação seguinte.

A verdadeira tese aparece no parágrafo seguinte, quando a autora afirma que a mentira tradicional era privada e detectável, ao passo que as mentiras políticas modernas exigem a reconstrução da textura factual, não dependendo de uma citação autoritativa para ser defendida.

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