Questão FC89061
É o discurso que nos liberta e é o discurso que estabelece os limites da nossa liberdade e nos impulsiona a transgredir e transcender os limites — já estabelecidos ou ainda a ser e
Sintaxe
CEBRASPE (CESPE) · 2021
O que nós chamamos de “realidade”, quando entramos em um ânimo filosófico, ou “os fatos da questão” quando seguimos obedientemente as instâncias da doxa, é tecido de palavras. Nenhuma outra realidade nos é acessível: não acessamos o passado “como ele realmente aconteceu”, o qual Leopold von Ranke celebremente conclamou (instruiu) seus colegas historiadores do século XIX a recuperar. Comentando sobre a história de Juan Goytisolo a respeito de um velho, Milan Kundera salienta que a biografia — qualquer biografia que tente ser o que seu nome sugere — é, e não poderia deixar de ser, uma lógica artificial inventada, imposta retrospectivamente a uma sucessão incoerente de imagens, reunida pela memória de partículas e fragmentos. Ele conclui que, em total oposição às presunções do senso comum, o passado compartilha com o futuro a ruína incurável da irrealidade — esquivando-se/evadindo-se obstinadamente, como ambos o fazem, das redes tecidas de palavras movidas pela lógica. Não obstante, essa irrealidade é a única realidade a ser captada e possuída por nós, que “vivemos em discurso como o peixe na água”.
Zygmunt Bauman e Riccardo Mazzeo. O elogio da
literatura. Zahar. Edição do Kindle (com adaptações).
Julgue o item que se segue, com relação a aspectos linguísticos do texto precedente.No trecho “É o discurso que nos liberta” (primeiro parágrafo), o termo “nos” desempenha a função de complemento indireto de “liberta”.
- Errado
- Certo
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A afirmação é errada porque o pronome "nos" no trecho exerce a função de complemento direto, e não de indireto.
Isso fica claro porque não há preposição anteposta a "nos". O verbo libertar é, no contexto, transitivo direto, ou seja, exige objeto direto para completar seu sentido. Pode também ser bitransitivo em construções como libertar alguém de algo, onde a pessoa é objeto direto e a coisa, introduzida por de, é complemento agente de separação.
Outro teste: a passivização "Somos libertados pelo discurso" transforma "nos" em sujeito paciente, confirmação de que, na voz ativa, era objeto direto. A ausência de preposição é o indicador decisivo.
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