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Questão FC89148

É o discurso que nos liberta e é o discurso que estabelece os limites da nossa liberdade e nos impulsiona a transgredir e transcender os limites — já estabelecidos ou ainda a ser e

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

CEBRASPE (CESPE) · 2021

É o discurso que nos liberta e é o discurso que estabelece os limites da nossa liberdade e nos impulsiona a transgredir e transcender os limites — já estabelecidos ou ainda a ser estabelecidos no futuro. Discurso é aquilo que nos faz enquanto nós o fazemos. E é graças ao discurso, e seu ímpeto endêmico de espreitar além das fronteiras que ele estabelece para a sua própria liberdade, que nosso estar no mundo é um processo de vir a ser perpétuo — incessante e infinito: nosso vir a ser € o vir a ser do nosso “mundo da vida” — juntar-se, misturar-se, embora sem solidificar, estreita e inseparavelmente, entrançados e entrelaçados, e compartilhando nossos respectivos sucessos e infortúnios, ligados um ao outro para o melhor e para o pior, desde o momento de nossa concepção simultânea até que a morte nos separe.

O que nós chamamos de “realidade”, quando entramos em um ânimo filosófico, ou “os fatos da questão” quando seguimos obedientemente as instâncias da doxa, é tecido de palavras. Nenhuma outra realidade nos é acessível: não acessamos o passado “como ele realmente aconteceu”, o qual Leopold von Ranke celebremente conclamou (instruiu) seus colegas historiadores do século XIX a recuperar. Comentando sobre a história de Juan Goytisolo a respeito de um velho, Milan Kundera salienta que a biografia — qualquer biografia que tente ser o que seu nome sugere — é, e não poderia deixar de ser, uma lógica artificial inventada, imposta retrospectivamente a uma sucessão incoerente de imagens, reunida pela memória de partículas e fragmentos. Ele conclui que, em total oposição às presunções do senso comum, o passado compartilha com o futuro a ruína incurável da irrealidade — esquivando-se/evadindo-se obstinadamente, como ambos o fazem, das redes tecidas de palavras movidas pela lógica. Não obstante, essa irrealidade é a única realidade a ser captada e possuída por nós, que “vivemos em discurso como o peixe na água”.
 

Zygmunt Bauman e Riccardo Mazzeo. O elogio da

literatura. Zahar. Edição do Kindle (com adaptações).


Julgue o item que se segue, com relação a aspectos linguísticos do texto precedente.

A inserção de uma vírgula logo após a palavra “fronteiras” (terceiro período do primeiro parágrafo) manteria as relações sintáticas originais do período, embora alterasse seu sentido.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

O item foi julgado ERRADO porque a inserção da vírgula alteraria tanto as relações sintáticas quanto o sentido do período.

No trecho, “que” funciona como pronome relativo que retoma fronteiras, introduzindo uma oração subordinada adjetiva restritiva, ou seja, informação essencial que identifica quais fronteiras são referidas.

Se colocarmos uma vírgula após fronteiras, essa oração passaria a ser explicativa, fornecendo um comentário acessório sobre as fronteiras, e não mais delimitando-as. Assim, a relação de especificação se perde e o sentido do enunciado muda.

Portanto, a vírgula não manteria as relações sintáticas originais, e a afirmação da questão é incorreta.

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