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Questão FC89174

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de

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CEBRASPE (CESPE) · 2022

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque — a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras — e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham.

Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
 

Clarice Lispector. Por não estarem distraídos.

In: Todas as crônicas. São Paulo: Rocco, 2018, p. 344.


No que se refere às ideias e a aspectos linguísticos do texto anterior, julgue o item a seguir.

Na oração “eles respiravam de antemão o ar que estava à frente”, é obrigatório o emprego do acento indicativo de crase no vocábulo “à”.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A afirmação é certa porque a expressão "à frente" funciona como locução adverbial formada por palavra feminina, frente, que admite artigo.

Na estrutura há necessidade da preposição a (p.ex., "estar a frente" com sentido espacial) e o substantivo admite o artigo feminino a, portanto ocorre a contração \(a + a = à\), o que torna o acento grave obrigatório.

Um teste prático: locuções adverbiais femininas equivalentes, como à direita ou à tarde, também exigem crase, confirmando o mesmo padrão.

Assim, em "eles respiravam de antemão o ar que estava à frente" o emprego de à é obrigatório, razão pela qual o item foi julgado certo.

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