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Questão FC89489

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de

Partícula Se

CEBRASPE (CESPE) · 2022

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque — a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras — e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham.

Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
 

Clarice Lispector. Por não estarem distraídos. In: Todas as crônicas. São Paulo: Rocco, 2018, p. 344.


No que se refere às ideias e a aspectos linguísticos do texto anterior, julgue o item a seguir.

No trecho “quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta”, o vocábulo “se”, em suas três ocorrências, está empregado como pronome reflexivo.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

O item está ERRADO porque o "se" do trecho não atua como pronome reflexivo, que indica ação praticada pelo sujeito sobre si mesmo, por exemplo, Maria penteou-se.

Nas duas primeiras ocorrências, em "se sente a garganta um pouco seca" e "se vê", o "se" é partícula apassivadora, formando a voz passiva sintética com verbos transitivos diretos ("sentir", "ver"), ou seja, há concordância com o sujeito paciente.

Na terceira ocorrência, em "por admiração se estava de boca entreaberta", o "se" funciona como índice de indeterminação do sujeito, pois "estar" é verbo de ligação e a oração tem sujeito indeterminado, mantido na 3.ª pessoa do singular.

Portanto, as ocorrências são de apassivação e indeterminação, não de reflexividade.

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