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Questão FC89498

Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parece

Partícula Se

CEBRASPE (CESPE) · 2021

Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a ideia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, darlhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas? Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me impediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça. Nunca tivemos censura prévia em obra de arte.

Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram raríssimos esses autos de fé. Em geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demagógicas, e disto escasso prejuízo veio à produção literária. Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade — talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. Não será impossível acharmos nas livrarias libelos terríveis contra a república novíssima, às vezes com louvores dos sustentáculos dela, indulgentes ou cegos. Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício.
 

Graciliano Ramos. Memórias do cárcere. Editora Record.


Com relação ao gênero textual e a aspectos linguísticos do fragmento apresentado de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, julgue o próximo item.

No trecho “Que diriam elas se se vissem impressas”, a primeira ocorrência do “se” é conjunção condicional, ao passo que, na segunda ocorrência, o “se” indica que o verbo ver é pronominal.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Que diriam elas se se vissem impressas apresenta dois "se" com funções distintas, por isso o item é CERTO.

O primeiro "se" funciona como conjunção subordinativa condicional, equivalente a "caso", introduzindo a hipótese "caso elas se vissem impressas".

O segundo "se" é um pronome oblíquo átono clítico que acompanha o verbo "ver", tornando-o verbo pronominal (ver-se). Nesse uso, o sujeito "elas" pratica e recebe a ação, caracterizando a voz reflexiva.

Portanto, há distinção sintática clara entre o conectivo condicional e o elemento pronominal ligado ao verbo, justificando o julgamento como certo.

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