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Questão FC89530

Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles

Morfologia

CEBRASPE (CESPE) · 2022

Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles, tudo é natural e cultural ao mesmo tempo. Para que se possa falar de natureza, é preciso que o homem tome distância do meio ambiente no qual está mergulhado, é preciso que se sinta exterior e superior ao mundo que o cerca. Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo. Pensando bem, entender o mundo como um todo, como um conjunto coerente, diferente de nós mesmos e de nossos semelhantes, é uma ideia muito esquisita. Como diz o grande poeta português Fernando Pessoa, vemos claramente que há montanhas, vales, planícies, florestas, árvores, flores e mato, vemos claramente que há riachos e pedras, mas não vemos que há um todo ao qual isso tudo pertence, afinal só conhecemos o mundo por suas partes, jamais como um todo. Mas, a partir do momento em que nos habituamos a representar a natureza como um todo, ela se torna, por assim dizer, um grande relógio, do qual podemos desmontar o mecanismo e cujas peças e engrenagem podemos aperfeiçoar. Na realidade, essa imagem começou a ganhar corpo relativamente tarde, a partir do século XVII, na Europa. Esse movimento, além de tardio na história da humanidade, só se produziu uma única vez. Para retomar uma fórmula muito conhecida de Descartes, o homem se fez então “mestre e senhor da natureza”. Resultou daí um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas, mas também a exploração desenfreada de uma natureza composta, a partir de então, de objetos sem ligação com os humanos: plantas, animais, terras, águas e rochas convertidos em meros recursos que podemos usar e dos quais podemos tirar proveito. Naquela altura, a natureza havia perdido sua alma e nada mais nos impedia de vê-la unicamente como fonte de riqueza.
 

Philippe Descola. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016, p.22-23 (com adaptações).

No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto anterior, bem como às ideias nele expressas, julgue o item a seguir.

No quarto período do texto, o emprego do futuro na forma verbal “poderá” deve-se não a uma questão de encadeamento temporal, mas, sim, à expressão de uma relação lógica entre as ideias das orações que compõem esse período.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: O gabarito está CERTO porque o uso do verbo poderá no quarto período do texto não indica apenas uma sequência temporal de ações, mas sim uma relação lógica entre as ideias apresentadas. Vamos analisar a construção da frase: "Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo."

Essa locução verbal, "poderá perceber", sugere uma potencialidade que ocorre como consequência da ação anterior, ou seja, ao se distanciar do meio ambiente, o homem adquire a habilidade de perceber a natureza em sua totalidade. O emprego do futuro do presente aqui introduz uma ideia de possibilidade que transcende o tempo, indicando que, sob as condições mencionadas, essa percepção é viável e até esperada.

Por exemplo, poderíamos substituir "poderá perceber" por "pode perceber", mas isso mudaria sutilmente a intenção do autor. A expressão no futuro sugere uma verdade que se mantém válida enquanto as condições sejam respeitadas, enfatizando que essa capacidade de percepção é uma consequência lógica do ato de se distanciar.

Portanto, o uso do futuro na forma verbal poderá é justificável como uma ferramenta que indica não apenas a possibilidade, mas também uma relação de causa e efeito, essencial para a compreensão das ideias apresentadas no texto.

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