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Questão FC89540

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de

Morfologia

CEBRASPE (CESPE) · 2022

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque — a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras — e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham.

Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
 

Clarice Lispector. Por não estarem distraídos.

In: Todas as crônicas. São Paulo: Rocco, 2018, p. 344.


No que se refere às ideias e a aspectos linguísticos do texto anterior, julgue o item a seguir.

A forma verbal “chegue” está empregada no modo subjuntivo por expressar um desejo.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A afirmação foi julgada ERRADO porque, embora a forma chegue esteja no presente do subjuntivo, nesse contexto não expressa desejo. A locução para que introduz uma oração subordinada adverbial de finalidade, ou seja, indica o propósito de sair de casa: "é preciso sair de casa para que a carta chegue".

O modo subjuntivo abrange várias funções, entre elas desejo, hipótese, possibilidade e finalidade. Aqui, o subjuntivo é exigido pela ideia de propósito, e não por um desejo do falante, por isso a justificativa que afirma ser desejo está incorreta.

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