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Questão FC89556

Quem sou eu?

Morfologia

CEBRASPE (CESPE) · 2021

Quem sou eu?

Se negro sou, ou sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muita vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais.
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar e guerra,
 — Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Siringa
Tinha pelo e má catinga;
O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada.
 

Luís Gama. Quem sou eu? In: Sílvio Romero. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. Internet: <www.brasiliana.usp.br> (com adaptações).


Glossário
Siringa: belíssima ninfa da água na mitologia clássica.
Midas: personagem da mitologia grega, rei da Frígia.
Jove: ou Júpiter, ou Zeus, deus dos deuses e dos homens.
Fauno: deus romano protetor dos pastores e rebanhos.
Plutão: ou Hades, deus que possuía as chaves do reino dos mortos.

Com relação a aspectos linguísticos do poema Quem sou eu?, anteriormente apresentado, julgue o próximo item.

No 44.º verso, o verbo ter é impessoal, significando o mesmo que haver, existir.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A afirmação é errada porque, no verso, o verbo ter é pessoal, com valor de "possuir", e não impessoal como haver no sentido de existir.

No trecho "O deus Midas, pelas contas, / Na cabeça tinha pontas;", o sujeito dessa oração é "O deus Midas", expresso na linha anterior, portanto o verbo concorda com esse sujeito e indica posse: Midas tinha pontas na cabeça.

Se o verbo fosse impessoal no sentido de existir, usar-se-ia haver e não haveria sujeito, por exemplo "Na cabeça do deus Midas havia pontas", onde "pontas" funciona como sujeito gramatical e o verbo permanece na 3.ª pessoa do singular. A substituição por "possuía" confirma o sentido de posse, mostrando que "ter" aqui é pessoal.

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