Questão FC89628
É o discurso que nos liberta e é o discurso que estabelece os limites da nossa liberdade e nos impulsiona a transgredir e transcender os limites — já estabelecidos ou ainda a ser e
Colocação Pronominal
CEBRASPE (CESPE) · 2021
O que nós chamamos de “realidade”, quando entramos em um ânimo filosófico, ou “os fatos da questão” quando seguimos obedientemente as instâncias da doxa, é tecido de palavras. Nenhuma outra realidade nos é acessível: não acessamos o passado “como ele realmente aconteceu”, o qual Leopold von Ranke celebremente conclamou (instruiu) seus colegas historiadores do século XIX a recuperar. Comentando sobre a história de Juan Goytisolo a respeito de um velho, Milan Kundera salienta que a biografia — qualquer biografia que tente ser o que seu nome sugere — é, e não poderia deixar de ser, uma lógica artificial inventada, imposta retrospectivamente a uma sucessão incoerente de imagens, reunida pela memória de partículas e fragmentos. Ele conclui que, em total oposição às presunções do senso comum, o passado compartilha com o futuro a ruína incurável da irrealidade — esquivando-se/evadindo-se obstinadamente, como ambos o fazem, das redes tecidas de palavras movidas pela lógica. Não obstante, essa irrealidade é a única realidade a ser captada e possuída por nós, que “vivemos em discurso como o peixe na água”.
Zygmunt Bauman e Riccardo Mazzeo. O elogio da
literatura. Zahar. Edição do Kindle (com adaptações).
Julgue o item que se segue, com relação a aspectos linguísticos do texto precedente.No trecho “Discurso é aquilo que nos faz enquanto nós o fazemos” (primeiro parágrafo), é obrigatório o emprego da forma pronominal “nos” antes da forma verbal “faz”.
- Certo
- Errado
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Em "Discurso é aquilo que nos faz enquanto nós o fazemos.", o elemento que funciona como pronome relativo, retomando "aquilo", portanto a oração equivale a "aquilo nos faz".
Na norma culta, pronomes relativos atraem o pronome oblíquo átono para antes do verbo, ou seja, ocorre próclise. Por isso a forma "nos faz" é exigida nessa posição; a colocação pós-verbal "*que faz-nos" seria inadequada no contexto da oração relativa.
Em suma, pela função do pronome relativo e pela regra de atração para a próclise, é obrigatório empregar "nos" antes de "faz" na frase dada.
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