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Questão FC89643

Quem sou eu?

Semântica

CEBRASPE (CESPE) · 2021

Quem sou eu?

Se negro sou, ou sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muita vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,

E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,

E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais.
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar e guerra,
 — Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Siringa
Tinha pelo e má catinga;
O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada.
 

Luís Gama. Quem sou eu? In: Sílvio Romero. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. Internet: <www.brasiliana.usp.br> (com adaptações).


Glossário
Siringa: belíssima ninfa da água na mitologia clássica.
Midas: personagem da mitologia grega, rei da Frígia.
Jove: ou Júpiter, ou Zeus, deus dos deuses e dos homens.
Fauno: deus romano protetor dos pastores e rebanhos.
Plutão: ou Hades, deus que possuía as chaves do reino dos mortos.

Com relação a aspectos linguísticos do poema Quem sou eu?, anteriormente apresentado, julgue os próximos itens.

Do 5.º ao 7.º verso e do 9.º ao 11.º verso, o poeta constrói, em cada verso, uma descrição baseada em adjetivos antônimos entre si.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Antonímia é relação semântica de oposição entre palavras, por exemplo ricos vs pobres. A afirmação dizia que, "em cada verso" dos trechos indicados, o poeta usa adjetivos antônimos — afirmação que motivou o julgamento ERRADO.

No trecho do 5.º ao 7.º verso, temos: "Há cinzentos, há rajados, / Baios, pampas e malhados, / Bodes negros, bodes brancos". aí só "negros" e "brancos" formam antonímia; os demais termos são apenas descrições de cores ou padrões, não oposições sistemáticas.

No trecho do 9.º ao 11.º verso, "Uns plebeus, e outros nobres, / Bodes ricos, bodes pobres, / Bodes sábios, importantes", apenas "ricos" versus "pobres" são antônimos; "sábios" e "importantes" não se opõem.

Portanto, como nem todos os versos contêm pares antonímicos, a generalização "em cada verso" é falsa, justificando o julgamento ERRADO.

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