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Questão FC89737

— Está bem, minha princesa, se não for muito incômodo, será que poderia me passar a lanterninha?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2021

Fernando arrancou o paletó no auge da impaciência e perguntou com voz esganiçada se eu pretendia ficar a noite inteira ali de estátua enquanto ele teria que encher o tanque naquela escuridão de merda porque ninguém lhe passava o raio da lanterna.

— Onde está a lanterna?

— Mas onde poderia estar a lanterna senão no porta-luvas, a princesa esqueceu?

Através do vidro, a estrela maior (Vênus) pulsava reflexos azuis. Gostaria de estar numa nave, mas com o motor desligado, sem ruído, sem nada. Quieta. Ou neste carro silencioso mas sem ele. Já fazia algum tempo que eu queria estar sem ele, mesmo com o problema de ter acabado a gasolina.

— As coisas ficariam mais fáceis se você fosse menos grosso — eu disse, entreabrindo a mão e experimentando a lanterna no pedregulho que achei na estrada.

— Está bem, minha princesa, se não for muito incômodo, será que poderia me passar a lanterninha?

Quando me lembro dessa noite (e estou sempre lembrando) me vejo repartida em dois momentos: antes e depois. Antes, as pequenas palavras, os pequenos gestos, os pequenos amores culminados nesse Fernando, aventura medíocre de gozo breve e convivência comprida. Se ao menos ele não fizesse aquela voz para perguntar se por acaso alguém tinha levado a sua caneta. Se por acaso alguém tinha pensado em comprar um novo fio dental, este estava no fim. Não está, respondi, é que ele se enredou lá dentro, se a gente tirar esta plaqueta (tentei levantar a plaqueta) a gente vê que o rolo está inteiro mas enredado e quando o fio se enreda desse jeito, nunca mais!, melhor jogar fora e começar outro rolo. Não joguei. Anos e anos tentando desenredar o fio impossível, medo da solidão? Medo de me encontrar quando tão ardentemente me buscava?
 

Lygia Fagundes Telles. Noturno Amarelo. In: Mistérios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981 (com adaptações).

Julgue o item seguinte, relativos aos sentidos e a aspectos linguísticos do texto precedente.

O fio dental enredado é usado pela personagem como metáfora para denotar não só o nível de desgaste do seu relacionamento infeliz, mas também para explicitar sua passividade diante de tal fato.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: O gabarito está CERTO porque a metáfora do fio dental enredado realmente reflete o estado do relacionamento da narradora com Fernando. O fio dental, uma ferramenta que deveria ser simples e funcional, simboliza a complexidade e o desgaste emocional que ela enfrenta. A frase "anos e anos tentando desenredar o fio impossível" indica a frustração persistente da personagem em tentar resolver um relacionamento que, na prática, se tornou intrincado e desgastante.

A metáfora também sugere a passividade da narradora diante da sua situação. Apesar de reconhecer que o relacionamento é "medíocre" e "infeliz", ela hesita em tomar uma atitude decisiva, ilustrada pelo seu esforço em tentar desenredar o fio em vez de simplesmente descartar o rolo e seguir em frente. Essa hesitação é ligada ao seu medo da solidão, apontando para uma luta interna entre seu desejo de liberdade e sua dificuldade de se desprender.

Portanto, a afirmativa de que o fio dental enredado representa não apenas o desgaste do relacionamento, mas também a passividade da personagem, é uma análise precisa e pertinente da metáfora usada por Lygia Fagundes Telles.

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